Catálogo operacional · controle interno

Tudo o que se faz no CIQ, atividade por atividade

O guia do CIQ narra o processo. Esta página o decompõe: 63 atividades em dez blocos, cada uma com quem faz, o que dispara, o que entra e o que sai — mais 28 casos de borda e os anti-padrões que corroem o controle por dentro.

01Como ler este catálogo

Cada atividade traz quatro informações, porque são elas que permitem transformar texto em procedimento — e, depois, procedimento em tela:

Quem faz

O papel responsável. Quando dois papéis aparecem, a política do laboratório define qual deles assume.

Gatilho

O que dispara a atividade. Algumas são por calendário; a maioria é por evento.

Entradas

O que precisa existir antes. Se falta entrada, a atividade acontece mal ou não acontece.

Saídas

O que fica registrado depois. Atividade sem saída registrada é atividade que a auditoria não vê.

Os blocos A a D acontecem raramente e são cadastro. E a G acontecem todo dia e são decisão. H e I só acontecem quando algo dá errado — e são os que separam um CIQ de verdade de um arquivo de números. J é o que transforma o conjunto em gestão.

02O mapa dos dez blocos

AFundaçãoBEquipamentoCLoteDPlanoEPreparaçãoFExecuçãoGLiberaçãocadastro — acontece raramentedecisão — acontece todo diaITratamentoHDetecçãoretorna à rotinaJMonitoramento de longo prazo — observa todos os blocos, em escala de meses
O caminho principal vai de A a G. O desvio (H e I) é um ramo que retorna, e o monitoramento (J) observa tudo de fora, em outra escala de tempo.
A

03Fundação — o que precisa existir antes de qualquer lote

Decisões de política que independem de equipamento e de material. Um laboratório que pula este bloco descobre tarde que não sabe dizer o que é "erro demais" para cada exame.

Ritmo: Uma vez, revisado anualmente ou quando o menu muda

A1Definir o menu de exames e os analitos executados internamente
Quem faz
RT + direção
Gatilho
Abertura do laboratório ou mudança de escopo
Entradas
Demanda clínica, viabilidade, contratos
Saídas
Lista de analitos próprios × apoiados

Detalhe que importa: Só se controla o que se executa. Exame enviado a apoio tem outro regime — o CIQ é do laboratório que mede.

A2Definir o requisito de qualidade (TEa) de cada analito
Quem faz
RT
Gatilho
Entrada do analito no menu
Entradas
Variação biológica, CLIA, RDC, estado da arte, opinião clínica
Saídas
TEa por analito, com a fonte registrada

Detalhe que importa: A fonte importa tanto quanto o número. Dois laboratórios podem escolher TEa diferentes para o mesmo analito e ambos estarem certos — o que não se admite é TEa sem origem declarada.

A3Cadastrar setores, métodos e unidades de medida
Quem faz
Gestor da Qualidade
Gatilho
Implantação
Entradas
Organograma, técnicas em uso
Saídas
Vocabulário comum do laboratório

Detalhe que importa: Enquanto método é texto livre, a pergunta "quais exames usam hexoquinase?" não tem resposta — e é ela que se faz quando um reagente é recolhido.

A4Escrever a política de controle da qualidade
Quem faz
RT + Gestor da Qualidade
Gatilho
Implantação
Entradas
RDC 978/2025, PALC/ISO 15189, realidade operacional
Saídas
POP aprovado e distribuído

Detalhe que importa: A política responde antes da crise: quem pode liberar rotina com controle reprovado, e sob quais condições. Decidir isso às 7h da manhã é decidir errado.

A5Qualificar fornecedores de material de controle
Quem faz
Compras + Gestor da Qualidade
Gatilho
Antes da primeira compra
Entradas
Registro ANVISA, rastreabilidade, assistência, prazo
Saídas
Fornecedor aprovado

Detalhe que importa: Vale checar se o fabricante publica valores para o método do laboratório. Um controle excelente sem valor atribuído para a sua técnica obriga o lab a estabelecer tudo do zero.

A6Definir a estratégia de CQ por analito
Quem faz
RT
Gatilho
Entrada do analito
Entradas
TEa, desempenho do método, risco clínico, volume
Saídas
Quantos níveis, quais regras, qual frequência

Detalhe que importa: Não existe conjunto de regras correto para todos os métodos. Método com Sigma alto tolera regra simples; método com Sigma baixo precisa de regra múltipla — e, às vezes, de outro método.

B

04Entrada de equipamento — do recebimento à liberação

Um analisador novo não entra em rotina porque ligou. Ele entra depois de demonstrar, com dados, que mede o que promete na faixa que interessa.

Ritmo: A cada equipamento novo, e após manutenção corretiva de grande porte

B1Receber, instalar e qualificar a instalação
Quem faz
Fornecedor + Técnico + RT
Gatilho
Chegada do equipamento
Entradas
Manual, requisitos de infraestrutura
Saídas
Registro de instalação e qualificação operacional

Detalhe que importa: Inclui condições do ambiente: temperatura, estabilidade elétrica, bancada. Muito desvio crônico nasce de infraestrutura, não do aparelho.

B2Cadastrar o equipamento
Quem faz
Gestor da Qualidade
Gatilho
Após instalação
Entradas
Fabricante, modelo, número de série, setor, unidade
Saídas
Equipamento identificável no sistema

Detalhe que importa: O número de série é o que liga o registro ao objeto físico quando há dois aparelhos iguais na mesma bancada.

B3Habilitar analitos e configurar cada sistema analítico
Quem faz
RT + aplicação do fornecedor
Gatilho
Após cadastro
Entradas
Analitos do menu, métodos disponíveis, reagentes
Saídas
Para cada analito: método, unidade, reagente padrão

Detalhe que importa: É aqui que "o Cobas faz glicose" vira "o Cobas faz glicose por hexoquinase, em mg/dL, com GLUC3". Sem isso, o alvo do controle não tem endereço.

B4Verificar o desempenho analítico
Quem faz
RT
Gatilho
Antes da liberação
Entradas
Amostras, materiais de verificação, protocolo
Saídas
Precisão (repetibilidade e intermediária), veracidade, linearidade, faixa de medição, limite de detecção, carryover

Detalhe que importa: É esta etapa que estabelece se o método consegue atender o TEa definido em A2. Se não conseguir, não adianta apertar a regra de Westgard — o problema é anterior.

B5Estabelecer ou verificar o intervalo de referência
Quem faz
RT
Gatilho
Antes da liberação
Entradas
Referência do fabricante, literatura, população atendida
Saídas
Intervalo de referência validado por analito

Detalhe que importa: Verificar o intervalo do fabricante com um número pequeno de amostras é aceitável e muito mais viável que estabelecer do zero.

B6Liberar o equipamento para uso
Quem faz
RT
Gatilho
Conclusão de B4 e B5
Entradas
Evidências reunidas
Saídas
Liberação registrada, com data e responsável

Detalhe que importa: A liberação é por sistema analítico, não pelo aparelho: é normal liberar 18 analitos e segurar 2 que ainda não fecharam a verificação.

C

05Entrada de lote — reagente, calibrador e material de controle

O bloco que mais se repete e o mais subestimado. Lote novo é evento analítico, não evento de estoque.

Ritmo: A cada lote recebido — algumas vezes por mês

C1Receber e conferir na chegada
Quem faz
Almoxarifado + Técnico
Gatilho
Entrega do fornecedor
Entradas
Nota, embalagem, indicador de temperatura
Saídas
Aceite ou recusa registrados

Detalhe que importa: Material de controle transportado fora da faixa pode chegar visualmente perfeito e analiticamente morto. A conferência de temperatura na chegada é a única chance de pegar isso.

C2Registrar o lote
Quem faz
Gestor da Qualidade
Gatilho
Após aceite
Entradas
Produto, fabricante, número de lote, validade, data de recebimento, condição de armazenamento
Saídas
Lote rastreável no sistema

Detalhe que importa: Vale registrar também quem recebeu. Quando um lote inteiro se mostra ruim, o primeiro passo é saber por quantas mãos ele passou.

C3Registrar níveis, sub-lotes e analitos cobertos
Quem faz
Gestor da Qualidade
Gatilho
Após C2
Entradas
Caixa e bula do lote
Saídas
Níveis com sub-lote e validade próprios; lista de analitos

Detalhe que importa: Um frasco cobre dezenas de analitos, e cada nível costuma ter número e validade próprios. O nível pode vencer antes do lote-mãe.

C4Transcrever os valores atribuídos da bula, por método
Quem faz
Gestor da Qualidade
Gatilho
Após C3
Entradas
Folha de valores do lote
Saídas
Média e faixa atribuídas por analito, nível e método

Detalhe que importa: A mesma creatinina traz valores diferentes para Jaffé e para enzimático. Copiar a linha errada é um erro silencioso que só aparece como viés constante semanas depois.

C5Qualificar o lote novo em paralelo com o atual
Quem faz
RT
Gatilho
Chegada do lote substituto
Entradas
Lote antigo ainda válido, lote novo
Saídas
Comparação documentada, decisão de aprovar

Detalhe que importa: Exige sobreposição planejada. Quem começa a qualificação no dia em que o lote antigo acaba não tem para onde voltar se o novo se comportar mal. Esta é a atividade que o laboratório mais pula e a que mais custa — ela tem uma seção inteira logo abaixo.

C6Estabelecer média e desvio-padrão próprios
Quem faz
RT
Gatilho
Após acumular medições suficientes
Entradas
Série de medições do lote no próprio sistema analítico
Saídas
Média e DP operacionais, CV

Detalhe que importa: A prática consolidada pede da ordem de 20 medições em 20 dias distintos, para capturar a variação entre dias — e não só a de uma corrida boa.

C7Abrir o frasco e registrar a abertura
Quem faz
Técnico
Gatilho
Primeiro uso do frasco
Entradas
Frasco identificado
Saídas
Data e hora de abertura, prazo de estabilidade pós-abertura

Detalhe que importa: Lote e frasco não são a mesma coisa. A validade do lote pode estar longe e o frasco já estar vencido por tempo de aberto — é uma das causas mais frequentes de desvio inexplicado.

Em detalhe · atividade C5

C5Por que se roda dois lotes ao mesmo tempo

Em uma frase: quando a sua referência é trocada, você precisa dos dois — a velha e a nova — lado a lado, senão fica sem saber se a diferença que apareceu veio da referência nova ou do seu equipamento.

Primeiro, em linguagem de padaria

A padaria confere a balança com um peso de referência de 1 kg. Todo dia, antes de abrir, coloca o peso na balança: se marcar 1 kg, pode vender.

Esse peso se desgasta e um dia precisa ser substituído. Chega um peso novo. Ele também diz 1 kg — mas todo peso tem o seu valor real, e o novo pode ser 1,002 kg. Se você simplesmente troca, e a balança também tiver se desregulado um pouquinho no mesmo período, os dois desvios se misturam e você não tem como separar: o seu único instrumento de medir a verdade acabou de ser trocado.

O jeito de não perder o fio é usar os dois pesos por um tempo, enquanto você ainda tem o antigo — aquele cujo comportamento você conhece de cor.

O que é “lote”, para quem é de fora

O material de controle é um líquido de concentração conhecida, fabricado em grandes fornadas. Cada fornada é um lote, com número e validade próprios. Duas fornadas do mesmo produto não são idênticas: o fabricante mede cada uma e imprime os valores daquele lote numa folha que vem na caixa — a bula.

E, mais importante: o valor que a sua casa obtém naquele lote costuma ser um pouco diferente do valor impresso, porque o impresso é uma média de muitos laboratórios. O número que vale para você é o que você mede.

O problema: as três semanas cegas

Para ter uma referência confiável de um lote novo, não basta olhar a bula: é preciso medir aquele lote no seu próprio equipamento umas vinte vezes, em vinte dias diferentes. Vinte dias, porque a variação entre dias é justamente o que se quer capturar.

Se o lote novo só começa a ser medido no dia em que o antigo acaba, então existem cerca de três semanas em que o laboratório opera com uma referência que ele sabe estar imprecisa, sem saber o quanto. E é exatamente nessas três semanas que qualquer defeito que apareça passa despercebido, porque cabe dentro da imprecisão.

SEM SOBREPOSIÇÃOlote antigo — referência sólida~3 semanas cegaslote novo — referência sólidao antigo acaba e o novo começa do zeroCOM SOBREPOSIÇÃOlote antigo — referência sólidalote novo — referência sólidaos dois juntosquando o antigo acaba, o novo já tem história
Em cima, a troca sem sobreposição: o lote novo começa do zero justamente quando o antigo some, e abre um período de referência fraca. Embaixo, a troca planejada: quando o lote antigo acaba, o novo já tem história.

A solução: o lote antigo vira testemunha

Rodar os dois ao mesmo tempo, enquanto o antigo ainda vale, faz duas coisas de uma vez.

Constrói a referência antes de precisar dela

Quando o lote antigo acaba, o novo já acumulou as medições necessárias. Não existe período cego.

Dá um ponto de comparação

O lote antigo é conhecido. Se algo se mexer, ele diz se a culpa é do lote novo ou do equipamento — que é a pergunta impossível de responder sozinho.

Cinco situações que acontecem de verdade

1

O erro que entra no alvo e nunca mais sai

O laboratório media glicose no controle antigo e sabia, de meses de medição, que ali o resultado girava em torno de 93. O lote acaba. O novo chega com a bula dizendo 96, e a equipe passa a usar 96 como referência.

Segunda mede 99. Terça 100. Quarta 101. Tudo perto de 96, nada dispara.

Só que duas coisas estavam acontecendo ao mesmo tempo. O lote novo, de fato, corre mais alto: a média verdadeira dele naquele equipamento é 100,5. E, junto, o aparelho tinha começado a medir 2 unidades a mais do que devia. Os dois efeitos somados couberam dentro da imprecisão da referência provisória.

Três semanas depois o laboratório calcula a própria média do lote novo: 102,6. E adota.

Acabou de gravar o defeito do aparelho dentro da referência. Dali em diante o controle nunca mais vai acusar aquele erro — porque o erro virou o normal. A conta chega meses depois, pelo controle externo, e ninguém consegue explicar de onde veio.

2

Saber se o problema é do frasco ou da máquina

Sobreposição rodando, os dois lotes medidos todo dia. No sexto dia, a creatinina do lote novo sobe.

Se a do lote antigo não se mexeu, o problema é do lote novo — ou daquele frasco, ou de como ele foi preparado. O equipamento está bom e os pacientes do dia estão bons.

Se a do lote antigo subiu junto, o problema é do sistema: reagente, calibração ou o próprio aparelho. E aí existem laudos em risco.

Sem o lote antigo rodando ao lado, você vê apenas o novo subindo e precisa adivinhar entre as duas. Na dúvida, muita gente recalibra o equipamento — e recalibrar um sistema que estava certo cria o erro que não existia.

3

O lote que é só diferente — e o susto que ele causa à toa

Os valores impressos na bula são uma média de vários laboratórios e vários aparelhos. O número da sua casa quase sempre é um pouco diferente, e isso é normal, não é defeito.

Um hormônio, por exemplo: a bula do lote novo diz 2,1. O seu equipamento mede 2,45, de forma firme, sempre igual. O lote antigo, enquanto isso, segue perfeitamente no lugar dele.

Na sobreposição, isso é lido como o que é: este lote corre mais alto aqui. Anota-se 2,45 como referência e segue a vida.

Sem sobreposição, no dia da troca o controle marca 2,45 contra uma referência de 2,1 — e isso reprova. A equipe passa a manhã investigando o aparelho, abre chamado técnico, talvez recalibre. Perdeu meio dia e possivelmente estragou algo que funcionava, por causa de uma diferença que era esperada.

4

O lote que chegou estragado

Caixa perfeita, frascos perfeitos, nada aparente. Na sobreposição, três enzimas do lote novo vêm bem abaixo do esperado e oscilando muito. As mesmas enzimas no lote antigo, normais.

Enzimas são as primeiras a se degradar com calor. Aquele lote pegou sol em algum ponto do transporte.

Descoberto durante a sobreposição, você liga para o fornecedor, pede a troca e a rotina continua no lote antigo, sem ninguém sentir. Descoberto no dia da virada, o laboratório fica sem material de controle em que confie — e a escolha passa a ser entre parar ou trabalhar às cegas.

5

O valor que não existe para a sua técnica

O mesmo exame pode ser feito por técnicas diferentes, e o valor esperado muda conforme a técnica. A bula traz uma tabela com os valores de cada uma.

Às vezes a técnica usada pela sua casa não está na tabela daquele lote.

Na qualificação você descobre com semanas de folga e tem tempo de estabelecer a referência por conta própria ou trocar de produto. Na virada, você descobre sem ter contra o que comparar.

Como se faz, na prática

A sobreposição precisa ser decidida na compra, não no dia da troca. Isso significa comprar o lote substituto quando o atual está por volta de 70% consumido — e não quando está acabando. É a parte da atividade que mais falha, porque parece decisão de estoque e é decisão analítica.

Durante o período, os dois lotes entram no mesmo evento de controle, medidos do mesmo jeito. No fim, existem três desfechos possíveis, e todos precisam ficar registrados:

Aprovar com referência própriaO lote se comportou de forma estável e já há medições suficientes. Adota-se a média medida na casa, não a da bula.
Aprovar provisoriamenteO lote está bem, mas a série ainda é curta. Usa-se a bula por enquanto, com a data prevista para revisar.
Recusar o loteO comportamento não fecha. Aciona-se o fornecedor enquanto o lote antigo ainda cobre a rotina.

Por que a ordem do catálogo é essa

C5 vem antes de C6 (estabelecer média e desvio próprios) e de D1 (ligar o lote ao plano) de propósito: é a sobreposição que produz os dados de C6 sem deixar o laboratório descoberto. Quem pula C5 é obrigado a fazer C6 já operando no escuro — que é precisamente a situação da primeira das cinco histórias acima.

D

06Plano de CIQ — onde as decisões viram configuração

O plano reúne o que estava espalhado e produz o critério que a rotina vai aplicar todo dia, sem depender de quem está de plantão.

Ritmo: A cada lote novo e sempre que a estratégia mudar

D1Vincular material, lote e níveis ao sistema analítico
Quem faz
Gestor da Qualidade
Gatilho
Lote aprovado em C5
Entradas
Lote qualificado, sistemas analíticos configurados
Saídas
Vínculo controle ↔ analito ↔ método ↔ equipamento

Detalhe que importa: O vínculo é o que permite dizer "este frasco controla estes analitos naquele aparelho" — e não em outro que use técnica diferente.

D2Definir qual média e DP estão em uso
Quem faz
RT
Gatilho
Configuração e revisões
Entradas
Valores da bula, valores próprios
Saídas
Alvo em uso, com a origem explícita

Detalhe que importa: Começa-se pela bula e migra-se para os próprios. Guardar os dois lado a lado permite ver quanto o laboratório se afasta do fabricante — que é informação, não erro.

D3Escolher as regras de controle
Quem faz
RT
Gatilho
Configuração
Entradas
Sigma do método, TEa, risco clínico
Saídas
Conjunto de regras ativas por analito

Detalhe que importa: Regra apertada em método instável gera rejeição falsa e ensina a equipe a ignorar alarme. Regra frouxa em método crítico deixa passar erro. As duas falhas custam caro, de formas diferentes.

D4Definir frequência e tamanho de corrida
Quem faz
RT
Gatilho
Configuração
Entradas
Instrução do fabricante, volume, risco, estabilidade
Saídas
Regra de frequência por tempo ou por número de amostras

Detalhe que importa: O tamanho da corrida define o prejuízo possível: quanto mais pacientes cabem entre dois controles, mais laudos entram em risco quando o segundo reprova.

D5Definir a conduta em caso de rejeição
Quem faz
RT
Gatilho
Configuração
Entradas
Política de CQ (A4)
Saídas
Ação esperada, quem decide, o que se faz com os pacientes do período

Detalhe que importa: Escrito antes, vira procedimento. Escrito durante a crise, vira improviso com assinatura.

D6Aprovar o plano
Quem faz
RT
Gatilho
Conclusão de D1 a D5
Entradas
Plano completo
Saídas
Plano aprovado, datado e versionado

Detalhe que importa: A versão importa: quando se investiga um desvio de três meses atrás, é preciso saber qual plano estava valendo naquele dia.

E

07Preparação operacional — antes de cada período de trabalho

Quatro conferências e um preparo. Nenhuma delas é sobre o controle em si: são as condições sem as quais o controle não significa nada.

Ritmo: Diário, antes de cada corrida

E1Executar a verificação diária do equipamento
Quem faz
Técnico
Gatilho
Início do turno
Entradas
Rotina do fabricante
Saídas
Verificações concluídas, alarmes tratados

Detalhe que importa: Temperatura interna, lavagens, checagens ópticas. Rodar controle sem isso é medir o erro do preparo, não o do sistema.

E2Conferir os reagentes
Quem faz
Técnico
Gatilho
Início do turno
Entradas
Reagentes a bordo
Saídas
Volume, validade e lote conferidos

Detalhe que importa: Se entrou lote novo de reagente, o fluxo muda: pode exigir recalibração e novo controle antes de qualquer paciente.

E3Conferir a validade das calibrações
Quem faz
Técnico
Gatilho
Início do turno
Entradas
Estado de calibração por analito
Saídas
Lista do que está válido e do que venceu

Detalhe que importa: A calibração vence por analito, não por equipamento. É comum ter 21 válidas e uma vencida.

E4Calibrar o que for necessário e avaliar a calibração
Quem faz
Técnico
Gatilho
Calibração vencida, lote novo, manutenção
Entradas
Calibrador com lote e validade próprios
Saídas
Curva ou fator atualizado, com aceite

Detalhe que importa: Calibrar não prova que funcionou. Quem prova é o controle rodado depois — e por isso o controle não pode ser o mesmo material do calibrador.

E5Preparar o material de controle
Quem faz
Técnico
Gatilho
Antes do evento de controle
Entradas
Frasco, instrução do fabricante
Saídas
Material pronto e identificado

Detalhe que importa: Liofilizado pede reconstituir com volume exato, aguardar o tempo determinado e homogeneizar sem formar espuma. Congelado pede descongelar e atemperar. Erro aqui reprova o controle por culpa do preparo.

E6Identificar e posicionar os controles
Quem faz
Técnico
Gatilho
Após E5
Entradas
Material preparado
Saídas
Controles na posição, identificados por nível

Detalhe que importa: Trocar N1 por N2 produz um ponto absurdamente fora que parece falha grave do equipamento. Identificação clara evita uma investigação inteira.

F

08Execução do evento de controle

O evento de controle é uma ou mais medições seguidas da avaliação das regras. É curto, e é o único momento em que o sistema analítico é efetivamente testado.

Ritmo: A cada evento definido em D4

F1Processar os controles como amostra de paciente
Quem faz
Técnico
Gatilho
Preparação concluída
Entradas
Controles preparados
Saídas
Resultados brutos por analito e nível

Detalhe que importa: Tratamento especial invalida a lógica: se o controle recebe outra diluição, outra ordem ou outro cuidado, ele deixa de representar o que acontece com o paciente.

F2Capturar os resultados
Quem faz
Sistema (interfaceamento) ou Técnico
Gatilho
Fim do processamento
Entradas
Saída do equipamento
Saídas
Valores registrados e datados

Detalhe que importa: Digitação manual introduz o erro que o controle deveria detectar. Quando houver interfaceamento, o controle deve trafegar identificado como controle — nunca como paciente.

F3Calcular o desvio em unidades de desvio-padrão
Quem faz
Sistema
Gatilho
Após F2
Entradas
Valor medido, média e DP em uso
Saídas
Z-score por medição

Detalhe que importa: É o Z que torna comparáveis analitos de escalas completamente diferentes, de sódio a TSH.

F4Atualizar a carta de Levey-Jennings
Quem faz
Sistema
Gatilho
Após F3
Entradas
Série histórica do alvo
Saídas
Ponto plotado na carta

Detalhe que importa: A carta só é legível se a série pertencer ao mesmo lote e ao mesmo alvo. Misturar lotes na mesma carta fabrica tendências que não existem.

F5Aplicar as regras de controle
Quem faz
Sistema
Gatilho
Após F4
Entradas
Regras ativas, pontos anteriores
Saídas
Regras violadas, se houver

Detalhe que importa: Regras como 2-2s, 4-1s e 10x olham para trás. Um ponto isolado não basta para avaliá-las — por isso o histórico precisa estar íntegro.

F6Emitir o veredito por sistema analítico
Quem faz
Sistema
Gatilho
Após F5
Entradas
Resultado de todas as regras
Saídas
Controlado, alerta ou rejeitado, por analito

Detalhe que importa: O veredito é por analito, nunca pelo aparelho. Glicose aprovada e ALT rejeitada no mesmo equipamento é a situação normal, não a exceção.

G

09Decisão e liberação da rotina

O ponto em que o CIQ deixa de ser registro e vira autorização. É aqui que alguém assume a responsabilidade por liberar pacientes.

Ritmo: A cada evento de controle aprovado

G1Aceitar o resultado do controle
Quem faz
Técnico ou Biomédico, conforme a política
Gatilho
Veredito emitido
Entradas
Veredito, carta, histórico
Saídas
Aceite registrado, com quem e quando

Detalhe que importa: Aceite não é clique: é a diferença entre o sistema ter avaliado e uma pessoa ter olhado. Controle avaliado e nunca aceito é desvio por omissão.

G2Liberar o sistema analítico para a rotina
Quem faz
Biomédico / RT
Gatilho
Após G1
Entradas
Aceites dos analitos
Saídas
Sistemas liberados, com hora e responsável

Detalhe que importa: A tela pode ser organizada por equipamento, porque é assim que a equipe pensa; a liberação precisa ser guardada por analito, porque é assim que o risco se distribui.

G3Abrir a corrida analítica
Quem faz
Sistema
Gatilho
Após G2
Entradas
Liberação, relógio
Saídas
Corrida com início, equipamento e controle de abertura

Detalhe que importa: É a corrida que responde "quais pacientes desde o último controle válido". Sem ela, a resposta sai da memória do plantão.

G4Monitorar eventos que encerram a corrida
Quem faz
Sistema + Técnico
Gatilho
Durante o período
Entradas
Troca de lote, calibração, manutenção, pausa longa
Saídas
Encerramento da corrida e exigência de novo controle

Detalhe que importa: Trocar lote de reagente no meio do turno encerra a corrida, mesmo que o horário do próximo controle ainda esteja longe.

H

10Detecção do desvio — as formas de perceber que algo mudou

Nem todo desvio grita. Os que mais custam são os que passam dentro da faixa, devagar, por semanas.

Ritmo: A cada evento de controle e na revisão periódica

H1Violação de regra em um ponto isolado
Quem faz
Sistema
Gatilho
Ponto além de 3 DP (1-3s)
Entradas
Valor e alvo
Saídas
Rejeição da corrida

Detalhe que importa: Costuma indicar erro aleatório ou grosseiro: bolha, coágulo, pipetagem, frasco trocado. É o desvio mais fácil de ver e frequentemente o menos grave.

H2Violação em série do mesmo lado
Quem faz
Sistema
Gatilho
2-2s, 4-1s ou 10x
Entradas
Histórico recente da carta
Saídas
Suspeita de erro sistemático

Detalhe que importa: Erro sistemático é o perigoso: desloca todos os resultados de pacientes na mesma direção, incluindo os que ainda parecem normais.

H3Diferença entre níveis na mesma corrida
Quem faz
Sistema
Gatilho
R-4s
Entradas
N1 e N2 do mesmo evento
Saídas
Suspeita de erro aleatório (imprecisão)

Detalhe que importa: Um nível sobe e o outro desce no mesmo evento. Aponta para instabilidade, não para viés.

H4Identificar tendência e deslocamento
Quem faz
Biomédico / RT
Gatilho
Leitura da carta
Entradas
Série de várias semanas
Saídas
Trend (subida gradual) ou shift (degrau)

Detalhe que importa: Uma tendência pode percorrer semanas sem violar nenhuma regra. Trend costuma ser degradação (reagente, lâmpada, calibrador); shift costuma ser evento (troca de lote, manutenção, recalibração).

H5Acompanhar os indicadores da carta
Quem faz
Gestor da Qualidade
Gatilho
Revisão periódica
Entradas
Série do período
Saídas
CV, viés e Sigma do analito

Detalhe que importa: O CV subindo mês a mês sem violar regra é um alerta precoce de que o método está perdendo capacidade de atender o TEa.

H6Detectar controle não realizado ou não avaliado
Quem faz
Sistema
Gatilho
Frequência definida em D4 não cumprida
Entradas
Regra de frequência, histórico
Saídas
Alerta de controle vencido

Detalhe que importa: É o desvio por omissão, e o mais fácil de esconder: não há ponto fora da carta porque não há ponto. Só aparece quando o sistema sabe quando o próximo controle era esperado.

I

11Tratamento — do bloqueio ao fechamento

Consertar a máquina resolve o futuro. O bloco completo precisa resolver também o passado: os laudos que saíram enquanto o sistema estava errado.

Ritmo: A cada rejeição

I1Suspender a liberação daquele sistema analítico
Quem faz
Biomédico / RT
Gatilho
Veredito de rejeição
Entradas
Veredito
Saídas
Analito bloqueado para liberação

Detalhe que importa: Bloqueia-se o analito, não o equipamento. Parar o aparelho inteiro por causa de um analito custa caro e treina a equipe a burlar o bloqueio.

I2Investigar pelas cinco frentes
Quem faz
Técnico + Biomédico
Gatilho
Após I1
Entradas
Material, reagente, calibração, equipamento, operador
Saídas
Causa provável identificada

Detalhe que importa: A ordem importa: começar pelo mais barato e mais provável (material e preparo) antes de abrir chamado técnico.

I3Classificar o tipo de erro
Quem faz
Biomédico / RT
Gatilho
Causa identificada
Entradas
Padrão na carta, achados da investigação
Saídas
Erro grosseiro, sistemático ou aleatório

Detalhe que importa: A classificação orienta a ação e, somada ao longo do tempo, revela se o laboratório tem um problema pontual ou crônico.

I4Executar a ação corretiva
Quem faz
Técnico
Gatilho
Causa identificada
Entradas
Causa, procedimento aplicável
Saídas
Ação registrada, com responsável

Detalhe que importa: Ação sem causa identificada é chute. Se a causa não apareceu, isso também precisa ficar registrado — é informação, não fracasso.

I5Repetir o controle
Quem faz
Técnico
Gatilho
Após a ação
Entradas
Material preparado
Saídas
Novo evento de controle

Detalhe que importa: Repetir sem ter feito nada, esperando que passe, é o anti-padrão mais comum do CIQ. O número de repetições precisa ser visível — ele denuncia sozinho.

I6Delimitar a janela de risco
Quem faz
Biomédico / RT
Gatilho
Confirmação do desvio
Entradas
Corrida analítica, último controle válido
Saídas
Lista de pacientes processados no período

Detalhe que importa: A pergunta é "desde quando", não "a partir de agora". Sem corrida registrada, a resposta vira estimativa.

I7Avaliar e tratar os resultados do período
Quem faz
RT
Gatilho
Após I6
Entradas
Resultados do período, magnitude do desvio, TEa
Saídas
Decisão por resultado: manter, repetir ou recolher

Detalhe que importa: Nem todo desvio invalida todos os laudos. Compara-se a magnitude do erro com o TEa e com o ponto de decisão clínica — um viés pequeno pode ser irrelevante em faixa normal e decisivo perto do limite.

I8Comunicar laudo já entregue, quando necessário
Quem faz
RT
Gatilho
Resultado liberado fora do aceitável
Entradas
Laudo, destinatário, magnitude
Saídas
Comunicação registrada e laudo retificado

Detalhe que importa: É a parte que ninguém quer fazer e a que mais protege o paciente. Precisa de procedimento escrito antes de acontecer.

I9Abrir não conformidade quando o caso exigir
Quem faz
Gestor da Qualidade
Gatilho
Reincidência, impacto em paciente, falha de processo
Entradas
Registro do desvio
Saídas
NC com análise de causa raiz e ação

Detalhe que importa: Nem toda rejeição vira NC — senão o sistema de NC perde sentido. O critério de quando abrir precisa estar na política (A4).

I10Registrar, liberar e fechar
Quem faz
Biomédico / RT
Gatilho
Novo controle aprovado
Entradas
Trilha completa
Saídas
Sistema liberado, novo período aberto, registro fechado

Detalhe que importa: O registro fechado é o que sustenta a auditoria meses depois: o que houve, o que se fez, quem decidiu e o que aconteceu com os pacientes.

J

12Monitoramento de longo prazo

O CIQ do dia responde "posso operar hoje". Este bloco responde "meu laboratório está melhorando ou piorando" — e é o que transforma registro em gestão.

Ritmo: Mensal, trimestral e anual

J1Revisar as cartas do período
Quem faz
Gestor da Qualidade + RT
Gatilho
Fechamento mensal
Entradas
Cartas de todos os analitos
Saídas
Leitura crítica por analito

Detalhe que importa: A revisão mensal pega o que a avaliação diária não pega: tendências lentas e analitos que vivem no limite.

J2Recalcular média, DP e CV do período
Quem faz
Sistema + RT
Gatilho
Fechamento mensal
Entradas
Série do mês
Saídas
Estatísticas do período por analito

Detalhe que importa: Recalcular não significa adotar automaticamente. Adotar uma média apurada num mês ruim é assinar embaixo do erro.

J3Calcular Sigma e revisar as regras
Quem faz
RT
Gatilho
Fechamento ou mudança relevante
Entradas
TEa, viés, CV
Saídas
Sigma por analito e ajuste do conjunto de regras

Detalhe que importa: Sigma alto permite simplificar a regra e reduzir rejeição falsa. Sigma baixo exige regra múltipla, mais níveis ou mudança de método — apertar a regra sozinho não conserta o método.

J4Confrontar o interno com o externo
Quem faz
RT
Gatilho
Retorno do CEQ
Entradas
Resultado do ensaio de proficiência, carta interna
Saídas
Coerência ou divergência identificada

Detalhe que importa: A combinação mais perigosa é CIQ impecável com CEQ ruim: significa um viés estável que o controle interno não enxerga, porque o alvo próprio já incorporou o erro.

J5Apurar os indicadores de CQ
Quem faz
Gestor da Qualidade
Gatilho
Fechamento mensal
Entradas
Eventos do período
Saídas
Taxa de rejeição, de repetição, tempo até tratamento, controles não realizados

Detalhe que importa: Taxa de rejeição caindo pode ser melhora real ou afrouxamento de regra. O indicador só se interpreta junto com o Sigma.

J6Levar à análise crítica da direção
Quem faz
RT + direção
Gatilho
Periodicidade definida
Entradas
Indicadores, NCs, custos, CEQ
Saídas
Decisões com recurso associado

Detalhe que importa: É onde "este método não atende o TEa" vira orçamento para trocar o método — ou decisão consciente de conviver com a limitação.

Onde o processo range

13Casos de borda

O fluxo principal é simples. O que consome o tempo do laboratório são as situações que não cabem nele — e quase sempre elas já aconteceram antes, em outro lugar.

A estatística do alvo

Desvio-padrão próprio pequeno demais

Por que engana: Apurado num período excepcionalmente estável, o DP encolhe e passa a acusar como violação uma variação perfeitamente normal.

Conduta: Comparar o CV do alvo com o desempenho esperado do método e adotar um DP mínimo coerente com o TEa, em vez de aceitar o número cru.

Desvio-padrão próprio grande demais

Por que engana: Apurado num período ruim, o DP incha e a carta deixa de reprovar qualquer coisa. O controle vira decorativo.

Conduta: Recalcular excluindo, com justificativa registrada, as corridas já tratadas como desvio — e não simplesmente adotar o número do mês.

Poucas medições para estabelecer o alvo

Por que engana: Com meia dúzia de pontos, média e DP não descrevem o sistema; descrevem o acaso da semana.

Conduta: Permanecer com os valores da bula até acumular série suficiente em dias distintos, e deixar visível na tela qual alvo está valendo.

A média própria se afastou muito da bula

Por que engana: Pode ser característica legítima do sistema analítico — ou um viés que já foi incorporado como se fosse normal.

Conduta: Confrontar com o CEQ antes de adotar. Se o externo também acusa viés, o alvo próprio está protegendo o erro.

Transições de lote e de estado

Virada de lote de controle

Por que engana: O alvo muda. Se os pontos do lote novo entrarem na mesma carta, aparece um degrau que parece desvio e não é.

Conduta: Iniciar carta nova por lote, manter a anterior consultável e registrar a data da virada.

Virada de lote de reagente

Por que engana: Pode deslocar a média sem que nada tenha acontecido com o controle — e o deslocamento é real, afeta pacientes.

Conduta: Tratar como evento: encerrar a corrida, recalibrar se aplicável e rodar controle antes de retomar.

Recalibração no meio do período

Por que engana: A série antes e depois da calibração descreve sistemas diferentes.

Conduta: Marcar o evento na carta. Sem a marca, a leitura futura confunde o degrau com degradação.

Lote descontinuado pelo fabricante

Por que engana: A transição deixa de ser planejada e vira urgência, justo quando a sobreposição é mais necessária.

Conduta: Acompanhar prazo e disponibilidade como parte do estoque crítico, e antecipar a qualificação do substituto.

Material e frasco

Frasco aberto há tempo demais

Por que engana: A validade do lote ainda está longe, mas a estabilidade pós-abertura acabou. O material degrada e simula falha do equipamento.

Conduta: Controlar a data de abertura por frasco, não por lote, e bloquear o uso quando o prazo pós-abertura expirar.

Nível vence antes do lote-mãe

Por que engana: Cada nível costuma ter sub-lote e validade próprios.

Conduta: Registrar validade por nível e alertar pela data mais restritiva.

Material transportado fora da faixa de temperatura

Por que engana: Chega íntegro na aparência e comprometido na prática; o desvio aparece dias depois, sem causa visível.

Conduta: Conferir indicador de transporte na chegada e recusar antes de registrar. Depois de aceito, é tarde.

Reconstituição imprecisa do liofilizado

Por que engana: Volume errado muda a concentração de todos os analitos do frasco de uma vez.

Conduta: Desconfiar de rejeição simultânea de muitos analitos do mesmo nível — o padrão aponta para o preparo, não para o sistema.

A natureza do exame

Exame qualitativo ou semiquantitativo

Por que engana: Não há média nem desvio-padrão; Levey-Jennings e Westgard simplesmente não se aplicam.

Conduta: Controlar por concordância com o resultado esperado (reagente / não reagente, ou o título esperado) e acompanhar a taxa de discordância ao longo do tempo.

Analito sem material de controle comercial

Por que engana: Existem exames para os quais não há controle industrializado disponível.

Conduta: Usar alternativas previstas e documentadas — pool interno caracterizado, amostra retida, material de terceiro — deixando claro o que é e qual sua limitação.

Nível de controle longe do ponto de decisão clínica

Por que engana: O sistema passa no controle e erra exatamente na concentração em que a decisão médica acontece.

Conduta: Escolher níveis próximos do limiar clínico sempre que o fabricante oferecer, mesmo que não sejam os mais convenientes.

Exame de volume muito baixo

Por que engana: O controle pode custar mais do que a produção do analito, e a frequência padrão deixa de fazer sentido econômico.

Conduta: Definir a frequência por risco, atrelada à corrida, e documentar o critério — não simplesmente deixar de fazer.

Topologia do laboratório

Dois equipamentos medindo o mesmo analito

Por que engana: Cada um tem sua carta, mas o paciente não sabe em qual aparelho caiu. Resultados precisam ser comparáveis entre eles.

Conduta: Manter cartas separadas e, além delas, avaliar periodicamente a comparabilidade entre os sistemas.

O mesmo analito por métodos diferentes na mesma casa

Por que engana: Os alvos são legitimamente diferentes, e os resultados podem não ser intercambiáveis.

Conduta: Separar por método desde o alvo e avaliar se o laudo precisa informar a técnica empregada.

Teste à beira do leito (POCT)

Por que engana: Operado por quem não é do laboratório, muitas vezes sem a mesma disciplina de registro.

Conduta: Incluir no mesmo programa de CQ, com responsável nomeado e treinamento registrado — o resultado entra no mesmo prontuário.

Unidade de medida divergente

Por que engana: Alvo em uma unidade e equipamento reportando em outra produz violação constante que parece falha analítica.

Conduta: Fixar a unidade no alvo e validá-la contra a saída do equipamento na configuração, antes da primeira corrida.

Calendário e operação

Plantão, feriado e fim de semana

Por que engana: Quem roda o controle pode não ser quem sabe avaliá-lo, e a liberação acaba acontecendo sem crítica.

Conduta: Definir na política quem avalia e quem libera fora do horário administrativo, e registrar a delegação.

Equipamento parado por vários dias

Por que engana: Reagentes a bordo, calibração e o próprio material envelheceram sem uso.

Conduta: Tratar a retomada como entrada: verificação, calibração se aplicável e controle completo antes do primeiro paciente.

Interrupção no meio da corrida

Por que engana: Queda de energia ou parada técnica quebra a condição operacional que o controle de abertura atestava.

Conduta: Encerrar a corrida no ponto da interrupção e exigir novo controle para reabrir.

Reagente acaba no meio da corrida

Por que engana: A troca introduz um lote novo em pleno período liberado.

Conduta: Encerrar a corrida na troca. O controle anterior não atesta o lote que entrou depois dele.

Erro humano e trânsito de dados

Níveis trocados

Por que engana: Rodar N2 no lugar de N1 gera um ponto absurdamente distante que parece falha grave do equipamento.

Conduta: Suspeitar de troca sempre que o desvio for grande demais para ser plausível, e conferir a identificação antes de abrir chamado técnico.

Erro de digitação no lançamento manual

Por que engana: Introduz justamente o tipo de erro que o controle deveria detectar, e no lugar onde ninguém procura.

Conduta: Preferir interfaceamento; onde houver digitação, alertar valores implausíveis no momento do lançamento.

Controle trafega como paciente no interfaceamento

Por que engana: O resultado do controle entra na base de pacientes, ou o controle deixa de ser avaliado.

Conduta: Garantir identificação do controle no protocolo e recusar, do lado do sistema, amostra de controle sem marcação.

Controle rodado e nunca avaliado

Por que engana: O valor foi registrado, a rotina seguiu, e ninguém olhou. Não há ponto fora da carta porque ninguém leu a carta.

Conduta: Exigir aceite explícito com responsável, e tratar corrida liberada sem aceite como pendência visível.

14Anti-padrões

Estes não são erros de execução — são hábitos. Cada um resolve um incômodo imediato e, em troca, desmonta silenciosamente a razão de o CIQ existir. Todos passam em auditoria de papel.

×

Repetir o controle até passar

Sem causa identificada, a repetição não corrige nada — só troca o ponto que aparece na carta. O número de repetições precisa ser visível, porque ele denuncia o padrão sozinho.

×

Ajustar a média para o controle caber

Mover o alvo até o resultado ficar dentro é inverter a lógica inteira: o alvo passa a descrever o erro em vez de detectá-lo.

×

Rodar o controle depois dos pacientes

Inverte a função do CIQ. Ele deixa de autorizar a corrida e passa a ser um registro para a auditoria ver.

×

Copiar os valores da bula do lote anterior

A bula é por lote. Reaproveitar o alvo antigo num lote novo produz viés constante que ninguém consegue explicar depois.

×

Desligar a regra que mais incomoda

Se uma regra reprova demais, a pergunta é se o método atende o TEa — não se a regra pode sair. Desligar trata o alarme, não o incêndio.

×

Controlar só no nível normal

O sistema pode funcionar bem na faixa normal e falhar na patológica, que é justamente onde a decisão clínica acontece.

×

Aceitar tudo em lote no fim do dia

Aceite retroativo não autoriza nada: os pacientes já foram liberados. Vira assinatura sem conteúdo.

×

Usar o calibrador como controle

O sistema foi ajustado por aquele material; medi-lo de volta é perguntar a alguém se ele concorda consigo mesmo.

×

Misturar lotes na mesma carta

Fabrica degraus e tendências que não existem, e esconde as que existem.

15Quem faz o quê

Os papéis se repetem ao longo dos dez blocos. Vale ler na vertical: quando um nome aparece em quase tudo, é sinal de concentração de risco em uma pessoa só.

PapelOnde atuaResponsabilidade que não delega
Responsável TécnicoA, B, C, D, I, JDefinir o TEa e as regras; decidir o destino dos laudos de um período comprometido.
Gestor da QualidadeA, C, D, H, I, JManter cadastro e rastreabilidade; apurar indicadores; decidir quando o desvio vira não conformidade.
Biomédico / analistaF, G, H, IAvaliar o controle e liberar o sistema analítico para a rotina.
TécnicoE, F, IExecutar preparação e controle como manda o procedimento — e registrar quando não foi possível.
Compras / almoxarifadoA, CConferir integridade e temperatura na chegada, antes do aceite.
DireçãoA, JProver recurso quando o método não atende o requisito de qualidade.

16O que o Lisya cobre hoje

Mapa honesto do catálogo contra o produto. O que está como evolução é o que ainda não tem tela nem dado armazenado — e está listado justamente para não ser confundido com pronto.

C1–C4 · Cadastro de material, lote, nível e alvojá existe/cqi/controles — hierarquia completa, com TEa, regras, tipo de resultado e vínculo ao equipamento.
C6 · Média e DP própriosjá existeO alvo guarda os valores da bula e os próprios lado a lado; o próprio prevalece quando há série suficiente.
C5 · Qualificação de lote novojá existeComparação entre lotes na virada.
E1–E4 · Preparação operacionalparcialCalibração e equipamentos existem em módulos próprios; falta reuni-los na tela única de preparação por equipamento.
F1–F6 · Execução e avaliaçãojá existe/cqi/lancamento — grade analito × nível com veredito ao vivo; Levey-Jennings, Westgard e Sigma em /cqi/resultados.
G1–G2 · Aceite e liberaçãojá existe/cqi/aprovacao — aceite com trilha, registrado por alvo (nível × analito × equipamento), que é a granularidade correta.
I2–I4 · Investigação e ação corretivajá existeCatálogo de causas com tipo de erro, mais ação corretiva e responsável na corrida.
H4–H5 · Tendência, CV e Sigmajá existeIndicadores por analito no monitor.
B3 · Configuração analítica por analitoevoluçãoHoje o vínculo é equipamento ↔ exame; falta método e reagente padrão.
C7 · Frasco e data de aberturaevoluçãoO cadastro para no nível. Sem frasco não há estabilidade pós-abertura nem consumo.
D4 · Frequência e tamanho de corridaevoluçãoSem ela não há como alertar controle vencido nem prever o próximo evento.
G3–G4 · Corrida analítica com pacientesevoluçãoÉ o que responde H6 e I6 — quais laudos entraram na janela de risco.
I6–I8 · Janela de risco e tratamento dos laudosevoluçãoDepende da corrida analítica existir como entidade.

Este catálogo nasceu do guia do processo

Se você chegou aqui direto, vale ler antes como as peças se encaixam — material, lote, nível, alvo, corrida e as regras que acendem o alarme.