Hub de qualidade · não conformidade

Gestão de Não Conformidade

Quando algo sai do combinado — um laudo errado, uma reclamação, um controle que reprovou — o laboratório não pode só “apagar o incêndio”. Ele registra, investiga a causa e impede que aconteça de novo. E, diferente das outras etapas, esse processo não mora em lugar nenhum do fluxo: dispara a qualquer momento, por qualquer pessoa.

Ocorrência / NCTransversalCausa raiz (5 Porquês · Ishikawa)Ação corretiva (CAPA)

01A ideia em 30 segundos

Imagine uma cozinha com a regra “todo prato sai a 65 °C”. Um dia, um prato sai frio. Você pode só trocar o prato (resolve o cliente de agora) — mas, se não descobrir por quê (o forno desregulado?), amanhã sai frio de novo. A gestão de não conformidades é o hábito de anotar o que saiu do combinado, corrigir na hora e atacar a causa para não repetir.

Guarde esta frase: registrar uma NC não é “abrir um processo contra alguém”. É transformar um erro em aprendizado — sem registro, o mesmo problema volta sempre. Uma não conformidade é qualquer desvio de um requisito: uma regra, um procedimento, uma norma, um prazo.

02Antes de tudo: a NC é transversal

Esta é a diferença que muda o desenho do processo. As outras etapas do laboratório são uma linha(recepção → coleta → triagem → execução → liberação → entrega → faturamento). A gestão de não conformidade nãoé um ponto dessa linha — ela é um guarda-chuva por cima de tudo: dispara em qualquer etapa, por qualquer pessoa, a qualquer momento — e também de fora do ciclo (uma reclamação que chega semanas depois, um achado de auditoria).

+ fontes externas: reclamação · auditoria · CQ reprovadoRegistrar ocorrênciaqualquer etapa · qualquer pessoa · a qualquer momentoRecepçãoColetaTriagemExecuçãoLiberaçãoEntregaFaturam.o ciclo do laboratório (linear) — mas a NC entra de qualquer ponto dele
Registrar é universal — a mesma porta serve para todas as etapas e para as fontes externas. Só a classificação (em que etapa ocorreu) é por área — e é ela que alimenta os indicadores.

Dispara a qualquer momento

no cadastro, na bancada, na liberação, no faturamento — ou semanas depois, por uma reclamação.

Por qualquer pessoa

recepção, técnico, biomédico, financeiro, ou uma fonte externa (cliente, médico, auditor).

Contraste com o CIQ

o controle interno é de uma etapa (a analítica); a NC é ortogonal ao ciclo inteiro.

Consequência prática para o produto: a porta de entrada precisa ser global (um “Registrar ocorrência” de qualquer tela), a fila e o tratamento são centralizados, e o ciclo volta a importar só na classificação (para o Pareto “onde mais erramos?”).

03Três palavras que confundem todo mundo

Ao tratar uma NC, três ações têm nomes parecidos e sentidos diferentes — confundi-las é o erro mais comum:

AGORA (sintoma)FUTURO (causa)Correçãodisposição imediataResolve o caso de agora (refaz o exame).Ação corretivaelimina a causa raizConserta o processo para não repetir.Ação preventivaevita o que nem ocorreuAge no risco antes de virar problema.
Correção trata o sintoma agora; ação corretiva elimina a causa para não repetir; ação preventiva age sobre um risco que ainda nem virou problema. As duas últimas formam o ciclo CAPA.

Segurança do paciente

um laudo trocado pode gerar conduta médica errada. Tratar a causa evita o próximo dano.

Exigência normativa

ISO 9001 (10.2), ISO 15189 e PALC 2025 exigem registro, causa e verificação de eficácia.

Motor de melhoria

as NCs viram indicadores: o que mais falha, onde e por quê.

04Quem faz o quê

A cultura importa tanto quanto o fluxo: quanto mais fácil qualquer pessoa registrar, mais o sistema enxerga.

PapelNo processo de NC
Quem detecta / registra (qualquer colaborador)abre a ocorrência com o que viu e a evidência; toma a correção imediata quando cabe.
Gestor da Qualidade / RTtriagem (classifica, prioriza, define o dono), monitora prazos, verifica eficácia e consolida indicadores.
Responsável pela ação (dono do processo)investiga a causa raiz e executa as ações corretivas no prazo, com evidência.
Alta gestãovê os indicadores na análise crítica, provê recursos e prioriza melhorias.
Auditorsó leitura — confere se o ciclo fecha: registro → causa → ação → eficácia → encerramento.
Cliente / paciente / médicofonte externa: a reclamação vira ocorrência e é tratada como qualquer outra.

05O processo, do registro ao encerramento

O coração é o ciclo CAPA (Corrective And Preventive Action). Ele só “fecha” quando a ação comprovadamente funcionou.

1 · Detectar& registrar + correção2 · Classificartriagem + risco3 · Causa raizpor que aconteceu4 · Plano de açãocorretiva + prazo5 · Executarfazer as ações6 · Verificara eficácia7 · Encerrarcom evidêncianão funcionou? reabre o plano
O ciclo: detectar → classificar → causa raiz → plano → executar → verificar → encerrar. Se a verificação mostra que não resolveu, a NC reabre — o loop vermelho.
  1. 1Detectar e registrar: quem percebeu abre a ocorrência (o quê, quando, onde, evidência) e toma a correção imediata (reter o laudo, refazer, avisar).
  2. 2Classificar (triagem): a Qualidade define tipo, área, severidade e risco; decide se precisa de causa raiz; define responsável e prazo.
  3. 3Analisar a causa raiz: investiga por que aconteceu (5 Porquês, Ishikawa). Sem isso, a ação vira “achismo” e o problema volta.
  4. 4Planejar a ação (CAPA): define as ações corretivas (e preventivas, se couber) que eliminam a causa, com responsável e prazo.
  5. 5Executar: o dono do processo realiza as ações e anexa a evidência.
  6. 6Verificar a eficácia: depois de um tempo, confere se o problema parou. Se não, reabre.
  7. 7Encerrar e aprender: fecha com evidência, atualiza indicadores e vira melhoria (novo POP, treinamento, mudança de processo).

06Como achar a causa raiz

Duas ferramentas simples ajudam a cavar até a causa de verdade — aquela que, corrigida, faz o problema sumir.

5 PORQUÊSLaudo saiu com valor errado.↳ Por quê? Digitação manual trocada.↳ Por quê? Sem conferência dupla.↳ Por quê? POP não previa.↳ Por quê? Processo nunca revisado.Causa raiz: falta de barreira no processo
Pergunte “por quê?” até chegar a algo acionável — em geral no processo, não na pessoa.
ISHIKAWA (6M)NCMétodoMáquinaMaterialMão de obraMeioMedição
Os 6M organizam as causas por família — ajuda a não esquecer nenhuma frente.

Classificar por severidade e risco

Nem toda NC merece o mesmo esforço. Uma matriz de risco (probabilidade × impacto) ajuda a priorizar quem investiga a fundo e quem só corrige.

IMPACTO ↑ · PROBABILIDADE →baixoaltocríticobaixomédioaltomínimobaixomédiobaixamédiaaltaaltomédiobaixo
Verde = corrigir e monitorar; amarelo = ação corretiva; vermelho = ação imediata + causa raiz obrigatória (e, se houver dano ao paciente, pode exigir notificação externa).

07Atividades, subatividades e inputs/outputs

Cada atividade consome entradas e produz saídas que alimentam a próxima — é o encadeamento que torna o processo auditável.

A. Detectar e registrar

Inputs

  • Evento/desvio observado
  • Evidência (foto, print)
  • Contexto (onde, quando)

Atividade + subatividades

  • Abrir a ocorrência (RNC)
  • Descrever o desvio + requisito
  • Registrar a correção imediata
  • Anexar evidência

Outputs

  • NC registrada (nº, data, autor)
  • Correção documentada
  • Fila de triagem alimentada

B. Classificar e analisar a causa

Inputs

  • RNC registrada
  • Dados/histórico do processo
  • Matriz de risco

Atividade + subatividades

  • Classificar tipo/área/severidade
  • Avaliar risco (prob × impacto)
  • Definir responsável e prazo
  • 5 Porquês / Ishikawa

Outputs

  • NC classificada e priorizada
  • Causa raiz identificada
  • Dono e prazo definidos

C. Planejar, executar e verificar

Inputs

  • Causa raiz
  • Recursos disponíveis
  • Critério de eficácia

Atividade + subatividades

  • Definir ações (corretiva/preventiva)
  • Executar com evidência
  • Verificar a eficácia após prazo
  • Reabrir se não resolveu

Outputs

  • Ações concluídas + evidência
  • Eficácia confirmada
  • NC pronta para encerrar

D. Encerrar e melhorar

Inputs

  • NC com eficácia confirmada
  • Histórico do período

Atividade + subatividades

  • Encerrar com aprovação
  • Atualizar indicadores
  • Gerar aprendizado (POP/treino)
  • Levar à análise crítica

Outputs

  • NC encerrada + trilha
  • Indicadores atualizados
  • Melhoria implementada

Visão geral (SIPOC)

FORNECEDORColaboradoresClientes/auditoriaCQ / indicadoresENTRADASDesvio + evidênciaRequisito violadoRisco / prazoPROCESSOSAÍDASCausa tratadaTrilha + evidênciaIndicadoresCLIENTEPacienteDireçãoAuditor1 Registrar2 Classificar3 Causa raiz4 Agir5 Verificar/Encerrar
SIPOC = Suppliers · Inputs · Process · Outputs · Customers — a leitura de ponta a ponta do que entra, o que acontece e para quem serve.

08Como isso vira módulo no Lisya

Honestidade primeiro: hoje existem peças do tratamento (causa/ação no CQ), mas um módulo unificado de NC/RNC ainda é um gap mapeado (PALC 2025). Este é o desenho para construí-lo.

Causa + ação no CIQ/cqi/aprovacaojá existeControle interno reprovado já registra causa (catálogo tipado) e ação — o embrião do CAPA.
Investigação + planos no CEQ/cq/externo/investigacaojá existeControle externo já tem causa raiz (aleatório/sistemático) e planos com verificação de eficácia.
Abrir ocorrência de qualquer telanovoevoluçãoBotão global “Registrar ocorrência”: captura desvio + evidência + correção imediata (a porta única).
Fila de triagem + risconovoevoluçãoQualidade classifica tipo/área/severidade/risco, define dono e prazo.
Causa raiz guiadanovoevolução5 Porquês e Ishikawa guiados, reusando o catálogo de causas do CQ.
Verificação de eficácia + reaberturanovoevoluçãoReabre automático se o critério não for atingido no prazo.
Fontes que viram NCnovointegrarCQ reprovado, reclamação do atendimento e achado de auditoria abrem NC automaticamente.
Análise de impacto retroativonovoevoluçãoQuando um defeito é detectado, avaliar as amostras/laudos processados ANTES da detecção (PALC 7.11) — hoje há o gate de aptidão, mas não a análise retroativa dos laudos já entregues.
Indicadores & análise críticanovoevoluçãoPareto por causa/tipo, tempo médio de tratamento, taxa de recorrência, % no prazo.