Guia do processo · qualidade laboratorial

Gestão de documentos e registros

O laboratório escreve como cada tarefa deve ser feita — e precisa garantir que a pessoa na bancada, agora, esteja seguindo a versão certa, aprovada por quem tem competência para aprovar. Este guia explica esse processo sem jargão: quem faz o quê, o que a norma exige e onde o papel ainda entra.

Documento × registroCiclo da versãoCiência da equipeCópias controladasGuarda e descarte

Por que existe

01Conhecimento que não está escrito não é do laboratório

Um laboratório faz a mesma coisa milhares de vezes por mês: colher, centrifugar, dosar, conferir, liberar. Cada uma dessas tarefas tem um jeito certo de ser feita — e quem executa muda. Entra gente nova, alguém sai de férias, o plantão da noite é outra equipe, um equipamento é substituído.

Se o jeito certo só existe na cabeça de quem está há dez anos na casa, três coisas acontecem: a qualidade varia conforme quem está na bancada, treinar alguém novo vira loteria, e o laboratório não consegue provar — nem para um auditor, nem para si mesmo — que faz o que diz que faz.

Então o laboratório escreve procedimentos. E nasce o problema que este processo resolve: documento escrito envelhece, se multiplica e se perde. A versão de 2023 continua impressa na bancada. Alguém salvou uma cópia no computador da recepção. O arquivo foi editado por três pessoas e ninguém sabe qual é o bom.

Gestão de documentos é o conjunto de controles que garante uma coisa só: que quem está executando agora siga a versão certa, aprovada por quem podia aprovar — e que isso seja demonstrável depois.

O conceito central

02Documento e registro são coisas diferentes

Confundir os dois é o erro mais comum de quem começa. São duas famílias de papel com funções opostas no tempo. O documento olha para frente: diz o que deve ser feito, existe antes da ação e vale para muitas execuções. O registro olha para trás: prova o que foi feito, nasce durante a ação e — esta é a regra de ouro — nunca é alterado depois de fechado.

DOCUMENTOO que deve ser feitoPOP de coleta de sanguePOP-COL-001 · versão 3.0vale para toda coletamuda por nova versãoexecutarREGISTROO que foi feitoColeta do paciente às 7h12por Ana · 19/09/2026vale para aquela coletanunca é alteradoAUDITORpedeos doisa regra e a provade que foi seguidaO formulário é a ponte entre os dois.Em branco, é documento aprovado. Preenchido, vira registro — e congela a versão que foi usada.
O mesmo objeto muda de natureza ao ser preenchido. É por isso que o módulo se chama documentos e registros: são dois ciclos de vida diferentes no mesmo lugar.

A consequência prática é dura: documento se corrige criando uma versão nova; registro errado nunca é apagado nem sobrescrito. A correção fica ao lado do valor original, com quem corrigiu, quando e por quê.

Quem participa

03Seis papéis — e uma regra que não se quebra

Papel não é cargo: num laboratório pequeno a mesma pessoa acumula dois ou três. O que não pode é a mesma pessoa escrever e aprovar o próprio documento — aí não existe revisão, existe carimbo.

PapelRecebeEntrega
Autora necessidade: falha encontrada, processo novo, norma que mudouo rascunho, com o passo a passo de quem executa
Revisor técnicoo rascunho e o motivo da mudançaparecer: aprova ou devolve dizendo o que mudar
Aprovador / RTo documento já revisado tecnicamentea assinatura que torna o documento válido
Gestor da qualidadeo acervo inteiro e os prazos correndopadrão, cobrança dos atrasados e a prova pronta na auditoria
Executantea versão vigente e o aviso de que mudoua confirmação de leitura e, ao executar, os registros
Auditoracesso de leitura ao escopo combinado, por tempo determinadoas constatações: o que está conforme e o que não está

Quem propõe pode ser qualquer pessoa — e deveria ser: quem executa é quem enxerga o problema primeiro. Quem cria o documento controlado, com código e prazo de revisão, é a gestão da qualidade; é esse passo que evita o acervo com quatro POPs de coleta e dois deles vigentes.

A visão geral

04O processo, de ponta a ponta

É um ciclo, não uma linha. Documento publicado volta para revisão depois de um tempo, e de lá sai uma versão nova ou a confirmação de que continua bom. Só deixa o ciclo quando é aposentado — e mesmo aposentado não some, porque o laudo emitido em 2023 foi produzido sob a regra de 2023.

01Necessidadealgo precisa mudar02Elaboraçãoquem executa escreve03Revisãoum par avalia04Aprovaçãoo RT assina05Publicaçãovira versão vigente06Ciênciaa equipe confirma07Usoa bancada executa08Registrosa prova nasce09Revisão no prazocontinua adequado?10Guardaretenção e descarteprecisa mudar → nasce uma nova versãoO ciclo não termina.Documento vivo volta para a etapa 02; só o que sai de uso segue para a guarda — e continua consultável.
As etapas 01 a 05 produzem o documento. As 06 a 08 o colocam em uso e geram a prova. As 09 e 10 cuidam do tempo: revisar, aposentar, guardar.

Em software

05Os estados de uma versão

O documento está sempre em uma situação, e só muda para onde a seta permite. É isso que impede o atalho — publicar sem passar por aprovação, por exemplo. Duas regras moram nesse desenho e não admitem exceção: versão publicada nunca é editada (qualquer mudança abre outra) e só existe uma versão vigente por vez.

nova versão abre outro rascunho — a vigente continua valendo até a nova ser publicadaRascunhosó quem escreve editaEm revisãocom o par técnicoEm aprovaçãocom o responsável técnicoVigenteé a única que valeenviaraprovarassinardevolver com motivoObsoletofica no históricosubstituída
Devolver exige motivo — devolução sem justificativa trava o processo e some do histórico. Cada transição fica registrada com pessoa, papel, data e razão.

O elo que costuma faltar

06Publicar não é comunicar

Entre o documento aprovado e a equipe fazendo diferente existe um vão, e é nele que a auditoria mais encontra falha. Publicar coloca a versão no sistema; ciência é o registro de que cada pessoa do público leu aquela versão — e a palavra “aquela” é o ponto: quem confirmou a 3.0 não confirmou a 3.1.

Quem precisa ler

O público pode ser o laboratório inteiro, um setor ou uma lista de pessoas. Sem público definido, a cobrança não existe.

Prova por versão

Pessoa + versão + data e hora. Publicar versão nova recria a pendência para todo o público.

Quem ainda falta

A lista nominal de quem não leu, para cobrar antes da auditoria cobrar.

Quando a mudança é relevante, ler não basta: o PALC pede que as equipes sejam treinadas nos documentos e executem integralmente — o que significa avaliação com registro, não um clique em “li e concordo”.

O papel que sobra

07A bancada imprime — e tudo bem

Luva, bancada molhada, equipamento sem tela por perto: papel continua fazendo sentido em muitos postos. O que não pode é papel velho circulando sem ninguém saber onde está. A saída é a cópia controlada: numerada, com posto e responsável conhecidos, e com uma consequência automática quando sai versão nova.

MAPA DE DISTRIBUIÇÃO001Sala de coleta 1v3.0em posto002Unidade Centrov3.0em posto004Bancada bioquímicav2.0a recolhero que sai impressoCÓPIA CONTROLADA Nº 004válida enquanto esta versão estiver vigenteQR no rodapéabre a validação públicaquando a versão 3.1 é publicada, toda cópia da 3.0 entra na fila de recolhimento — sozinha
A impressão sem controle sai carimbada como “cópia não controlada quando impressa”, com a data. A cópia controlada tem número, dono e prazo — e a publicação de uma versão nova abre a tarefa de recolher.

No rodapé de cada página vai um código curto e um QR. Quem recebe aquele papel — outro serviço, um cliente, um auditor — confere em segundos, sem login, se aquela é a versão vigente. E a página de validação não mostra o conteúdo do documento: só a identidade da versão, quem assinou e se ainda vale.

O que é exigido

08A norma escreve boa parte do software

Duas famílias, com pesos diferentes. A lei sanitária vale para todo laboratório em funcionamento no Brasil. As normas de acreditação são voluntárias — mas, quando o laboratório busca o selo, passam a ser cobradas item por item. Três requisitos do PALC 2025 definem sozinhos parte do que um sistema precisa fazer:

“…deve garantir que os documentos contenham, no mínimo, o nome do laboratório, a identificação do documento e da versão, além da identificação do autor do documento e da autoridade que o aprovou. A integridade do documento deve estar garantida pelo registro do número da página e do número total de páginas, em todas as páginas…”

PALC 2025 · item 3.3

É literalmente o cabeçalho e o rodapé do PDF. “Página 1 de 4” não é enfeite: é integridade — a página solta na bancada denuncia que falta alguma.

“Quando o laboratório utiliza instruções de trabalho na forma de fluxograma, sumário, ficha resumo, formulários, planilhas de registros ou sistema semelhante, deve extrair as informações de um documento aprovado e garantir a conexão entre eles de forma rastreável, com registros da identificação do documento e da versão originais.”

PALC 2025 · item 3.7

O formulário precisa saber de qual POP e de qual versão ele nasceu. É a base do vínculo documento → formulário → registro, e uma das coisas que o sistema faz bem e o papel faz mal.

“Alterações feitas nos registros críticos devem gerar registros correspondentes, contendo a data e a identificação do responsável pela alteração […] de forma a preservar o dado original. […] Lembrar que o uso de ‘corretivos’ não é permitido.”

PALC 2025 · item 4.3

A proibição do corretivo no papel é a mesma regra que, no software, proíbe sobrescrever um campo de registro.

NormaPesoO que exige sobre documentação
RDC Anvisa 978/2025leiVigente desde junho de 2025 (substituiu a RDC 786/2023). Documentação e registros mantidos por no mínimo 5 anos; retificação de laudo emitido se faz em novo laudo.
PALC 2025 · cap. 3acreditaçãoProcedimento documentado de controle, conteúdo mínimo do documento, treinamento nas versões, os itens obrigatórios de um procedimento de exame e o uso de instruções do fabricante.
PALC 2025 · cap. 4acreditaçãoGestão de registros: identificação, coleta, indexação, acesso, armazenamento, correção e descarte — com lista dos registros que precisam existir.
ISO 15189:2022acreditaçãoRequisitos de qualidade e competência para laboratórios clínicos, com exigências de controle de documentos e registros equivalentes.
LGPDleiA retenção obrigatória prevalece sobre o direito de exclusão: registro que a norma manda guardar não se apaga — anonimiza-se.
CFM 1.821/2007 e 2.314/2022leiRegistro eletrônico de saúde tem guarda permanente; eliminar o papel exige assinatura digital com certificado ICP-Brasil.

O tempo

09Guardar, aposentar e descartar

É a parte que menos se entende e que mais custa caro quando erra. Descartar antes do prazo é infração; descartar sem ata é o mesmo que não conseguir provar que se descartou direito. E há registros com regra própria: manutenção de equipamento se guarda enquanto o equipamento existir; prova de treinamento, enquanto a pessoa trabalhar ali.

registro criadodia 0uso correntearquivamentoguarda obrigatória · mínimo de 5 anosprazo cumpridoelegível a descarteparecer do RTata assinadaRegistro eletrônico não entra nesta linha: a guarda é permanente, e o sistema não deve nem oferecer o botão de descartar.
Documento obsoleto não some: continua consultável, marcado como obsoleto, porque é ele que explica um resultado do passado.

No produto

10Como isso vira tela no Lisya

O ciclo de vida do documento já está no ar; a parte de registros é a evolução em andamento. Este é o mapa de conceito → tela, sem promessa: o que existe está marcado como existe.

Biblioteca, busca no conteúdo e painel de prazos/gdocsjá existeVencidos primeiro, o que depende de você, e busca que entra no texto do documento.
Elaborar, revisar, aprovar e assinar/gdocsjá existeFluxo por tipo documental, devolução com motivo obrigatório e assinatura ICP-Brasil quando configurada.
Versões, comparação e obsolescência/gdocsjá existeDiferença entre versões marcando o que entrou e o que saiu; a anterior vira obsoleta na publicação.
Ciência por versão e quem ainda falta/gdocsjá existeConfirmação presa à versão, com a lista nominal dos pendentes.
Cópias controladas e recolhimento/gdocs/copiasjá existePapel numerado com posto e responsável; publicar versão nova marca as antigas para recolher.
Validação pública pelo QR/validar/documentojá existeSem login, mostra se aquela versão é a vigente — e nunca o conteúdo.
Modo auditor e dossiê/gdocs/auditoriasjá existeSessão somente leitura com escopo e prazo, log do que foi aberto e dossiê em PDF com hash próprio.
Importar o acervo com IA/gdocs/importarjá existeA IA lê os PDFs que o laboratório já tem e propõe tipo, código, setor, versão e conteúdo para conferência.
Formulários e registros preenchidosnovoevoluçãoO formulário vira registro imutável, preso à versão usada, com correção que preserva o valor original.
Documentos externos e impacto regulatórionovoevoluçãoNorma, bula e manual com edição e vigência — e o alerta de quais documentos citam a edição superada.
Retenção e descarte por atanovoevoluçãoPrazo por tipo de registro, elegibilidade e ata assinada pelo responsável técnico.
Treinamento com avaliaçãonovoevoluçãoPublicar decide entre ciência e treinamento; a pessoa só conta como habilitada quando conclui.

Quer ver o controle de documentos funcionando?

Do rascunho à versão vigente, com ciência da equipe, cópias rastreadas na bancada e dossiê pronto para a auditoria — tudo dentro do Lisya.