Guia do processo · qualidade laboratorial
Controle Interno da Qualidade
Todo dia, antes de entregar um resultado a um paciente, o laboratório precisa provar que suas máquinas estão medindo certo. Este guia explica como esse processo funciona — sem jargão — em duas metades: a preparação, que define o alvo e as regras, e a operação, que decide todo dia se a rotina pode começar.
01A ideia em 30 segundos
Imagine uma balança de padaria. Antes de vender pão o dia inteiro, você coloca sobre ela um peso conhecido de 1 kg. Se marcar 1 kg, a balança é confiável e pode pesar os clientes. Se marcar 1,2 kg, você conserta antes de cobrar alguém a mais.
O laboratório faz o mesmo. O “peso conhecido” é um líquido especial — o material de controle — com valor já sabido (ex.: “esta amostra tem glicose ≈ 90 mg/dL”). Todo dia mede-se esse material na máquina. Se bate com o esperado, o sistema está “sob controle” e os exames dos pacientes seguem. Se não bate, para-se, investiga-se e corrige-se antes de liberar laudos.
Guarde esta frase: o CIQ não avalia o paciente — ele avalia se o sistema de medição (máquina + reagente + método) está funcionando, para que o resultado do paciente seja confiável.
O resultado de cada medição do controle vira um ponto num gráfico — a carta de Levey-Jennings. Enquanto os pontos ficam perto do centro, tudo bem; quando saltam para longe, o gráfico “acende”. Toda a preparação existe para que esse gráfico signifique alguma coisa:
1-3s.O foco deste guia
02A etapa de Preparação
Preparação é tudo o que precisa estar pronto antes de a rotina diária começar. Sem ela, não existe alvo para comparar, nem regra para acender o alarme. É uma etapa feita normalmente uma vez por lote de material de controle (e revista quando entra um lote novo, um reagente novo ou um equipamento novo).
Camada 1
Preparação estrutural
Acontece quando entra algo novo: equipamento, método, reagente, calibrador, material de controle ou lote. É rara, demorada e define o que será medido contra o quê.
Camada 2
Preparação operacional
Acontece antes de cada período de trabalho. É curta, diária e responde a uma única pergunta: este sistema está liberado para receber pacientes agora?
Confundir as duas é a origem de boa parte da frustração com CIQ. A primeira é cadastro; a segunda é decisão. As seções a seguir percorrem a estrutural; a rotina do dia cobre a operacional.
O que é, quem faz e quando
| Subatividade | Quem faz | Quando |
|---|---|---|
| Comprar / receber o material de controle | Compras + Gestor da Qualidade | Ao repor estoque / novo lote |
| Cadastrar material → lote → nível | Gestor da Qualidade | Quando o lote chega |
| Definir o alvo por analito (média/DP da bula) | Gestor da Qualidade / RT | Antes da 1ª corrida do lote |
| Informar o erro tolerado (TEa) e a unidade | RT / Gestor da Qualidade | Na configuração do alvo |
| Escolher as regras de Westgard | RT (com sugestão do Sigma) | Na configuração do alvo |
| Vincular o alvo ao equipamento | Gestor da Qualidade | Na configuração do alvo |
| Validar o lote novo (rodar em paralelo) | RT | Na virada de lote |
Quem fornece o material de controle?
O material de controle é um produto industrializado, comprado de fabricantes especializados — é uma amostra biológica (soro, urina, sangue) estabilizada, com concentrações conhecidas e estáveis por meses. No Brasil e no mundo, os fornecedores típicos são Bio-Rad, Randox, Thermo Fisher, Controllab, entre outros. Alguns provedores de controle também operam programas de comparação entre laboratórios (peer group) — mas isso já é o CEQ (controle externo), assunto de outra página.
Fabricante do controle
Produz o material e emite a bula com os valores de referência.
Fabricante do reagente/equipamento
Define o método e influencia o valor esperado por método.
O próprio laboratório
Após ≥20 medições, calcula seus próprios média/DP (regra CLSI).
03Material, lote, nível, analito — o que são e como se relacionam
Esta é a espinha dorsal da preparação. Os quatro termos parecem sinônimos, mas cada um tem um papel. Eles se encaixam numa cadeia, do mais geral (o produto) ao mais específico (a medição de um dia):
- Material de controle
- O produto em si — ex.: “soro-controle de bioquímica, marca X”. Define a matriz (soro, urina, sangue total, plasma) e o fabricante. Um material serve para muitos analitos ao mesmo tempo (um único frasco tem glicose, ureia, colesterol…).
- Lote
- Um fabrico específico daquele material, identificado por um número de lote e uma validade. Cada lote tem valores de referência próprios (a bula é por lote). Trocar de lote é um evento sério: os alvos mudam e o lote novo precisa ser validado.
- Nível
- A concentração. O mesmo lote costuma vir em 2 ou 3 níveis — ex.: N1 (valores normais) e N2 (valores patológicos/altos) — para testar a máquina em faixas diferentes do exame. Cada nível pode ter seu próprio sub-lote e validade.
- Analito
- A substância medida — glicose, potássio, TSH, colesterol… No Lisya o analito é o mesmo cadastro que já existe nos exames (o parâmetro do exame). Um nível de controle tem valores para vários analitos.
- Alvo
- O “ponto de encontro”: para um analito, num nível, num equipamento, o alvo guarda a média esperada, o desvio-padrão, a unidade, o erro tolerado (TEa) e as regras ativas. É o alvo que a corrida do dia é comparada.
- Corrida
- A medição do controle num dia — o valor que o técnico lança. Vira um ponto na carta e recebe o veredito (controlado, alerta, violado ou vencido).
Exemplo concreto
Material “Controllab Bioquímica” → lote NIH-3N (validade 07/2027) → nível N2 (patológico) → analito Glicose → alvo: média 250 mg/dL, DP 7, TEa 10%, regras 1-3s · 2-2s · R-4s, no equipamento Cobas c311. Hoje o técnico mede e lança 252 → cai dentro de ±1 DP → controlado.
Lote e frasco não são a mesma coisa
Um lote chega como vários frascos. Todos compartilham o mesmo número de lote, a mesma bula e o mesmo alvo — mas cada frasco tem vida própria a partir do momento em que é aberto.
Separar os dois permite controlar data de abertura, estabilidade após aberto, armazenamento, consumo e descarte — e responder, diante de um resultado estranho, se aquele frasco específico já estava aberto tempo demais.
E os níveis têm lote próprio
No catálogo de alguns fabricantes o produto tem um lote mestre e cada nível carrega o seu: lote mestre 12340, nível 1 12341, nível 2 12342, nível 3 12343. Por isso o nível tem sub-lote e validade próprios — ele pode vencer antes do lote-mãe.
04O que está sendo controlado: o sistema analítico
Dizer que o laboratório “faz glicose” não basta para controlar coisa alguma. O CIQ não controla o exame em abstrato — ele controla a combinação concreta que produz aquele número. Essa combinação tem nome: sistema analítico.
O mesmo analito pode ser medido por métodos diferentes, e equipamentos diferentes costumam usar métodos diferentes. Isso não é detalhe acadêmico: o valor esperado do controle muda com o método.
| Analito | Equipamento | Método |
|---|---|---|
| Glicose | Cobas c311 | Hexoquinase |
| Glicose | outro analisador | Glicose oxidase |
| Creatinina | Cobas c311 | Enzimático |
| Creatinina | outro equipamento | Jaffé |
| Hemoglobina glicada | HPLC | Cromatografia líquida |
| TSH | Atellica | Quimioluminescência |
Por que isso muda o cadastro
O mesmo frasco de controle, a mesma creatinina, pode trazer na bula dois valores: Jaffé → 1,20 mg/dL e enzimático → 1,05 mg/dL. Por isso o alvo não é “material → analito → valor”. Ele é material + lote + nível + analito + método/equipamento → valor.
Três coisas que costumam ser confundidas
Reagente
Participa da reação que mede a substância do paciente. É insumo: tem lote, validade e volume.
Calibrador
Ensina o sistema a converter sinal em concentração: “quando enxergar este sinal, ele vale X mg/dL”.
Controle
Verifica se, depois de calibrado, o sistema continua medindo certo. Não ajusta nada — só revela.
A ordem entre eles é fixa: configura-se o método → calibra-se quando necessário → roda-se o controle → se o controle passa, libera-se a rotina. E repare na assimetria: a calibração acontece por evento (troca de lote, manutenção, perda de calibração, instrução do fabricante), enquanto o controle é muito mais recorrente. Não se calibra toda vez que se vai rodar pacientes.
05Configurar o equipamento e os sistemas que ele abriga
Um equipamento não é uma unidade de controle — ele é um abrigo de sistemas analíticos. O mesmo analisador pode conter dezenas deles, cada um com método e reagente próprios. Por isso não se diz “controle do Cobas”, e sim controle dos analitos executados no Cobas.
O aparelho
Fabricante, modelo, número de série, setor e unidade. Muda quase nunca.
A configuração de cada analito
Método, unidade de medida e reagente padrão. É o que transforma “o Cobas faz glicose” em “o Cobas faz glicose por hexoquinase, em mg/dL, com o reagente GLUC3”.
Esse cadastro é estável, mas é ele que dá endereço a tudo o que vem depois: o alvo do controle, a calibração e a liberação diária são todos pendurados nele.
06Os três lotes que caminham juntos
Configurado o sistema, entra o que muda com frequência: os lotes. São três, com papéis distintos, e cada um tem número, validade e data de abertura próprios.
Controle não pode ser o mesmo material do calibrador. Se o controle for aquilo com que o sistema foi ajustado, ele vai concordar consigo mesmo — e não avalia nada. O controle precisa ser uma verificação independente do processo de medição.
Lote novo não entra direto em uso
Um lote que chega passa por uma qualificação antes de virar a referência da rotina: registro, avaliação, comparação com o lote anterior, calibração quando aplicável, execução de controles e aprovação. Na prática isso exige sobreposição: o lote novo roda em paralelo enquanto o antigo ainda vale.
O erro clássico é começar a qualificação no dia em que o lote antigo acaba. Descobre-se ali, sem saída, que o novo se comporta de forma inesperada. A mecânica dessa comparação está em validação de lote.
07Bula, método e a vinculação com o equipamento
O que é a “bula” do controle
A bula (ou “certificado de valores”, value assignment sheet) é o documento que acompanha cada lote do material de controle. Nela o fabricante informa, para cada analito, o valor esperado (média) e a faixa aceitável — e, crucialmente, faz isso por método/equipamento, porque o mesmo soro pode dar números um pouco diferentes conforme a tecnologia de medição. É da bula que sai o alvo inicial no Lisya.
Alvo da bula
Valor de fábrica. Usado no começo, enquanto o laboratório não tem histórico próprio.
Média própria (CLSI)
Após ≥20 corridas, o Lisya calcula e passa a usar a média/DP do próprio laboratório — que reflete melhor a sua realidade.
O que é “método” — e quais existem
Método é a técnica físico-química que a máquina usa para medir o analito. Ele importa no CIQ porque o valor esperado e a variação natural dependem do método — por isso a bula é por método, e por isso cada equipamento tem sua própria carta. Os principais grupos de métodos em um laboratório clínico:
Espectrofotometria / colorimetria
Mede cor/absorbância após uma reação (enzimática ou cinética). Bioquímica clássica: glicose, ureia, colesterol.
Turbidimetria / nefelometria
Mede a turvação causada por complexos (proteínas específicas, PCR, imunoglobulinas).
Imunoensaios (CLIA / ECLIA / ELISA)
Usam anticorpos + sinal (quimioluminescência, fluorescência). Hormônios, marcadores, sorologia: TSH, PSA, vitamina D.
Eletroquímica (ISE / potenciometria)
Eletrodo íon-seletivo para eletrólitos: sódio, potássio, cloro.
Cromatografia (HPLC, LC-MS/MS, GC)
Separa e quantifica com alta precisão: dosagem de drogas, hormônios, toxicologia, metabólitos.
Citometria de fluxo / impedância
Conta e classifica células. Hemograma, imunofenotipagem.
Coagulometria
Mede o tempo de formação do coágulo (óptico/mecânico): TP, TTPa.
Biologia molecular (PCR / qPCR)
Detecta/quantifica ácidos nucleicos: cargas virais, painéis moleculares.
No Lisya, hoje o método é implícito no equipamento (cada equipamento roda um método). Modelar o método como campo próprio do alvo é uma evolução natural para laboratórios que rodam o mesmo analito por técnicas diferentes — está no roadmap.
A vinculação com o equipamento
Vincular o alvo a um equipamento significa dizer em qual máquina aquele controle é medido. É essencial porque cada instrumento tem seu próprio comportamento — logo, sua própria carta de controle. Se o mesmo analito roda em dois equipamentos (ex.: o principal e o de backup), existem dois alvos, um por equipamento, cada um com sua carta. Isso, além de correto, habilita a comparabilidade: confirmar que os dois aparelhos entregam o mesmo resultado para o mesmo paciente.
08As regras de Westgard — o que são e para que servem
Um ponto isolado longe do centro pode ser azar. As regras de Westgard são um conjunto de padrões estatísticos que separam ruído (variação natural) de problema real. Servem para responder, de forma objetiva e sem “achismo”: este controle reprova ou não? Cada regra é nomeada pelo padrão que detecta. Algumas reprovam na hora; uma delas é só alerta.
| Regra | O que detecta | Efeito |
|---|---|---|
1-2s | 1 ponto além de ±2 DP | Alerta |
1-3s | 1 ponto além de ±3 DP | Reprova (erro aleatório) |
2-2s | 2 pontos seguidos além de ±2 DP do mesmo lado | Reprova (erro sistemático) |
R-4s | um ponto acima e outro abaixo, distância > 4 DP | Reprova (imprecisão) |
4-1s | 4 pontos seguidos além de ±1 DP do mesmo lado | Reprova (deriva) |
10x | 10 pontos seguidos do mesmo lado da média | Reprova (viés sistemático) |
Quais regras usar? O Sigma decide
Ativar todas as regras em tudo gera alarme demais (falsos positivos) e cansa a equipe. A escolha certa depende de quão robusto é o exame — medido pelo Sigma. Quanto maior o Sigma, menos regras são necessárias. O Lisya sugere o conjunto a partir do Sigma calculado do alvo.
1-3s; Sigma 3 → multirregra completa.09TEa e metas de erro — quanto de erro a medicina tolera
O TEa (Erro Total Admissível) é o máximo de erro que um resultado pode ter e ainda assim ser clinicamente confiável — não atrapalhar a decisão do médico. É o número que dá sentido a tudo: sem saber “quanto erro é tolerável”, não dá para dizer se o exame está bom o bastante (o Sigma) nem escolher as regras de Westgard certas.
Todo resultado carrega dois tipos de erro ao mesmo tempo: o viés(o quanto ele erra sempre para o mesmo lado — inexatidão) e a imprecisão (o vaivém aleatório, medido pelo CV%). O TEa é o “orçamento” que esses dois têm de caber dentro:
De onde sai o TEa (a hierarquia das fontes)
Não se “inventa” o TEa: escolhe-se de uma fonte reconhecida, de preferência nesta ordem, e documenta-se qual foi:
- 1Variação biológica: a referência “ouro” — metas derivadas de quanto o analito varia no próprio corpo (bases EFLM/Ricos). Tem três níveis: mínima, desejável e ótima.
- 2Limites regulatórios / de proficiência: metas de programas e normas: CLIA 88 (EUA), RCPA (Austrália), RiliBÄK (Alemanha) — práticas e amplamente usadas.
- 3Estado da arte / consenso: o que a melhor tecnologia atual entrega, quando não há meta biológica útil.
Exemplos de TEa (ilustrativos)
| Analito | TEa típico | Fonte comum |
|---|---|---|
| Glicose | ≈ 10% | CLIA / biológica |
| Colesterol total | ≈ 9% | CLIA |
| Creatinina | ≈ 11% | CLIA |
| Potássio | ≈ 6% (ou ±0,5 mmol/L) | CLIA |
| Sódio | ≈ 4% | CLIA |
| TSH | ≈ 20% | biológica |
Valores apenas para ilustrar a ordem de grandeza — cada laboratório define e documenta os seus. Quem define: RT / Gestor da Qualidade, por analito. No Lisya, o TEa é um campo do alvo e é o que habilita o Sigma e a sugestão de regras.
10Validação de lote novo (crossover)
Para o passo a passo e cinco situações reais do que dá errado quando se pula esta etapa, veja por que se roda dois lotes ao mesmo tempo.
Cada lote de material de controle tem valores próprios — a bula é por lote. Por isso trocar de lote não é só “continuar medindo”: se você simplesmente jogar os pontos do lote novo na carta antiga, o gráfico “pula” de degrau por um motivo artificial (o lote mudou), não porque a máquina piorou. A validação de lote novo (ou crossover) evita isso.
- 1Adquirir o lote novo com antecedência: antes de o lote atual acabar, para haver tempo de rodar em paralelo.
- 2Rodar em paralelo: medir os dois lotes juntos por vários dias (protocolos CLSI sugerem uma quantidade mínima de medições).
- 3Estabelecer os alvos do lote novo: calcular a média/DP do lote novo a partir dessas medições (preferindo os valores do próprio laboratório aos da bula).
- 4Conferir a diferença entre lotes: se o deslocamento entre lotes for aceitável, virar a chave; senão, investigar antes.
- 5Virar a chave: ativar o lote novo — que começa com a sua própria carta, do zero.
Erro comum: arrastar a carta do lote antigo para o lote novo. Toda troca de lote é uma nova linha de base — a carta recomeça.
No Lisya: um lote novo é um novo Lote → Nível → Alvo, e a média própria se recalcula a partir das corridas do lote novo (≥20). Uma tela dedicada de crossover (comparar lote atual × novo lado a lado) está no roadmap.
11Incerteza de medição
Nenhum resultado é um ponto exato — todo número medido vem com uma margem. A incerteza de medição (U) é essa margem: em vez de “glicose = 100”, o mais honesto é “glicose = 100 ± U”, com uma confiança estatística (normalmente 95%). A ISO 15189pede que o laboratório estime a incerteza dos seus exames quantitativos e a informe quando solicitada.
Para que serve
- • Interpretar resultados perto de limites de decisão.
- • Comparar exames seriados do mesmo paciente (o resultado mudou de verdade?).
- • Cumprir a ISO 15189.
De onde ela vem
- • Principalmente da imprecisão de longo prazo — o DP do controle interno ao longo do tempo.
- • Mais a incerteza do calibrador e do viés.
- • Combinadas em u; a incerteza expandida U = k·u (k=2 ≈ 95%).
O elo com o CIQ: a maior fonte da incerteza é justamente o desvio-padrão do controle interno acumulado. Ou seja, os dados que você já gera todo dia no CIQ alimentam a estimativa de incerteza. No Lisya o dado já existe (corridas → DP); calcular e exibir a incerteza por analito é uma evolução natural.
12O plano de CIQ — onde tudo se junta
Até aqui cada peça foi cadastrada separadamente: o sistema analítico, os lotes, o alvo da bula, o erro tolerado, as regras. O plano de CIQ é o documento vivo que amarra tudo e responde a uma pergunta operacional: como eu vou saber se a glicose está sob controle?
| Campo do plano | Exemplo | De onde vem |
|---|---|---|
| Equipamento | Cobas c311 | Cadastro do equipamento |
| Analito + método | Glicose · hexoquinase | Configuração analítica |
| Material e lote de controle | Chemistry Control · 12340 | Entrada do lote |
| Níveis em uso | N1 e N2 | Decisão do RT |
| Média e DP | N1: 93,1 ± 2,1 — N2: 247,3 ± 4,2 | Bula no início, próprios depois |
| Regras ativas | 1-3s · 2-2s · R-4s | Escolha do RT, orientada pelo Sigma |
| Frequência | A cada corrida analítica | Fabricante + risco + volume |
Dois valores, não um
O plano guarda o valor do fabricante (média e faixa atribuídas na bula) e o valor do laboratório (média, DP e CV apurados no próprio sistema analítico). O primeiro serve para começar; o segundo é quem manda depois que houver medições suficientes — porque ele descreve este equipamento, com este reagente, nas suas condições.
Da preparação para a operação
13A rotina do dia — onde o CIQ realmente acontece
Tudo até aqui foi preparação: existe alvo, existe regra, existe unidade. Agora são 6h30 e a rotina começa. É aqui que a preparação vira decisão operacional.
A preparação operacional tem quatro conferências antes do controle propriamente dito — e a quarta é a mais esquecida: o preparo do próprio material de controle. Conforme o produto, ele pode estar refrigerado, congelado, liofilizado ou líquido pronto para uso. Um liofilizado exige reconstituir, aguardar o tempo determinado, homogeneizar e, quando aplicável, aliquotar — e cada um desses passos, mal feito, reprova o controle por culpa do preparo, não da máquina.
- 1Preparar o equipamento: Liga, aquece, roda as verificações internas próprias do fabricante.
- 2Conferir reagentes: Tem volume suficiente? Validade em dia? Lote correto? Armazenamento adequado?
- 3Conferir a calibração: A calibração segue válida? Entrou lote novo que exige recalibrar? Houve manutenção?
- 4Preparar o material de controle: Retirar da geladeira, aguardar, homogeneizar, identificar — ou reconstituir, se liofilizado.
- 5Rodar os controles: Nível 1 e nível 2 entram no equipamento — tratados exatamente como amostras de paciente.
- 6Avaliar: O sistema compara com o alvo, calcula o desvio em DP, atualiza a carta e aplica as regras.
- 7Decidir: Aprovado: a corrida está liberada e os pacientes entram. Reprovado: a rotina não começa.
Um detalhe que a norma cobra: as amostras-controle devem ser analisadas da mesma forma que as amostras dos pacientes. Se o controle recebe tratamento especial — outra diluição, outra ordem, outro operador — ele deixa de representar o que acontece com o paciente.
Repare no que não acontece: não épaciente → controle → paciente → controle. O controle acontece em torno de conjuntos de exames. Um evento de controle é uma ou mais medições seguidas da avaliação das regras — e entre um evento e o seguinte passam dezenas ou centenas de pacientes.
14Corrida analítica: o período que o controle cobre
Corrida analítica é o conjunto de amostras processadas sob uma mesma condição operacional, entre um início e um encerramento definidos pelo laboratório. Não é “um lote de tubos colocado de uma vez”: em equipamentos contínuos, é mais um período analítico controlado do que um conjunto físico.
Uma corrida se encerra — ou recomeça — por eventos bem definidos:
O motivo de tratar a corrida como algo nomeado e datado, e não como uma noção vaga, aparece no dia em que um controle reprova. É a corrida que responde à pergunta mais difícil do CIQ: quais pacientes foram processados desde o último controle válido?
Atenção ao vocabulário
A palavra corrida carrega dois sentidos no dia a dia do laboratório, e vale separar: neste guia, corrida analítica é o período de processamento de pacientes; nas telas de CIQ do Lisya, corrida hoje nomeia uma medição datada do material de controle — o ponto que aparece na carta. São coisas diferentes, e confundi-las é o começo de um erro caro: a norma exige CIQ “a cada corrida analítica”, no primeiro sentido.
15Com que frequência repetir o controle
“Uma vez por dia” é uma resposta comum e insuficiente. A frequência é uma decisão técnica do laboratório, com um piso normativo.
O piso no Brasil
A referência sanitária vigente é a RDC 978/2025, que substituiu a RDC 786/2023. Para os produtos de diagnóstico in vitro em geral, ela estabelece CIQ no mínimo a cada corrida analítica, seguindo as instruções do fabricante, e também após manutenção preventiva e corretiva. O CIQ deve contemplar os equipamentos e analitos realizados, com critérios, frequência, registros e avaliação dos resultados.
Acima do piso, a decisão pesa fatores que mudam de analito para analito:
Duas formas de expressar a mesma regra
Por tempo
Controle às 06h45, pacientes até 12h, novo controle, pacientes até 18h.
Por número de amostras (run size)
Controle → 500 pacientes → controle → 500 pacientes → controle.
O run size importa porque ele define o tamanho do prejuízo possível: quanto mais pacientes cabem entre dois controles, maior o número de laudos em risco se o segundo reprovar. Equipamentos de alto volume e operação contínua justificam estratégias baseadas em risco, não em hábito.
16Quando o controle reprova
Esta é a parte mais crítica do CIQ, e a que separa um registro burocrático de um controle de verdade. O controle reprovou — a corrida não está aprovada. Antes de qualquer coisa: não se segue liberando paciente até entender o problema.
Cinco frentes de investigação
Identificada a causa: ação corretiva → novo controle → controle aprovado → retomada da rotina. Registrar a causa importa porque ela é o que transforma reprovações isoladas em um padrão visível.
A pergunta que quase todo mundo esquece
Consertar e seguir em frente resolve o futuro. Falta o passado: desde quando o sistema pode estar errado?
Dependendo do problema encontrado, o laboratório pode precisar reavaliar, repetir ou até recolher resultados já processados. A boa prática internacional é explícita quanto a isso: responder a uma condição “fora de controle” inclui identificar e corrigir resultados de pacientes potencialmente incorretos — não apenas consertar a máquina.
É por isso que a corrida analítica precisa ser uma entidade com hora de início, hora de fim e pacientes associados. Sem ela, a pergunta continua sendo respondida de memória.
17O que precisa estar cadastrado antes — e quem cadastra
A preparação só flui se algumas informações já existirem no sistema. Abaixo, cada peça: o que é, de onde vem, quem cadastra e onde no Lisya.
| Informação | De onde vem | Quem cadastra | Onde no Lisya |
|---|---|---|---|
| Analito (parâmetro do exame) | Catálogo de exames do laboratório | Gestor / RT | /cadastros de exames · /cqi/analitos |
| Equipamento | Patrimônio + fabricante do instrumento | Gestor da Qualidade | /cqi/equipamentos · /calibragem |
| Unidade de medida | Bula / método do analito | Gestor / RT | no alvo (Controles) |
| Erro tolerado (TEa) | Metas de erro (CLIA, RCPA, metas biológicas) | RT / Gestor da Qualidade | no alvo (Controles) |
| Material → Lote → Nível | Bula do material comprado | Gestor da Qualidade | /cqi/controles |
| Alvo (média/DP da bula, regras) | Bula do lote + Sigma | Gestor da Qualidade / RT | /cqi/controles |
| Catálogo de causas de rejeição | Boas práticas do laboratório | Gestor da Qualidade | /cqi/causas |
De onde vêm as informações — em resumo
- Bula do lote: média, DP e faixa aceitável por analito × método — a fonte do alvo inicial e da unidade.
- Metas de erro (TEa): literatura e normas: CLIA 88, RCPA (Austrália), metas de variação biológica (EFLM/Ricos). Definem o quanto de erro a medicina tolera.
- Fabricante do equipamento/reagente: define o método e ajuda a interpretar os valores por tecnologia.
- O próprio laboratório (CLSI): após ≥20 corridas, gera a média/DP próprios — que substituem a bula como alvo.
- Catálogo interno: as causas de rejeição típicas do laboratório, para fechar o loop quando um controle reprova.
18Como isso vira tela no Lisya
Boa parte da preparação já existe no produto; o que falta está claramente marcado. Este é o mapa de conceito → tela.
Um detalhe de arquitetura que o Lisya já acerta
A tela pode ser centrada no equipamento, porque é assim que o técnico pensa. Mas a aprovação precisa ser guardada no nível do sistema analítico — é perfeitamente possível ter glicose liberada e ALT reprovada no mesmo aparelho, e dizer “o Cobas está reprovado” pararia o laboratório inteiro sem motivo. No Lisya o aceite é registrado por alvo (nível × analito × equipamento), com quem validou e quando, que é a granularidade correta.
A pergunta que a tela precisa responder
A carta de Levey-Jennings é o símbolo do CIQ, mas não é por onde a jornada começa. Às 6h30 o técnico não quer um gráfico — ele quer uma resposta: “posso operar?”. Uma tela de CIQ bem feita abre listando cada sistema analítico com seu estado do momento (controle válido, próximo controle às 11h30, controle reprovado) e só então oferece a carta, para quem quiser entender o porquê. O CIQ deixa de ser um cadastro de resultados e passa a ser o painel de aptidão do laboratório.
Quer ver o CIQ funcionando de ponta a ponta?
Da preparação do lote ao lançamento da bateria do dia, com carta de Levey-Jennings, Westgard e Sigma — tudo dentro do Lisya.
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