Hub de qualidade · gestão de risco
Gestão de Risco
Não conformidade é o problema que já aconteceu. Gestão de risco é o oposto: olhar para frente e perguntar “o que pode dar errado?” — e colocar barreiras antesdo dano. Este guia explica o processo, as ferramentas e traz exemplos.
01A ideia em 30 segundos
Quando você entra num carro há uma corrente de proteções pensadas antes de qualquer acidente: cinto, airbag, ABS, revisão. Ninguém espera bater para pensar em segurança. Gestão de risco é isso no laboratório: listar o que pode dar errado, avaliar quão provável e quão grave seria, e colocar barreiras antes que vire dano ao paciente.
Guarde esta frase: gestão de risco não elimina todo risco (impossível) — ela o torna conhecido, priorizado e controlado a um nível aceitável. Exigência da ISO 15189:2022, ISO 31000 e do PALC 2025.
02Risco × Não conformidade: os dois lados do tempo
A não conformidade olha para trás (algo deu errado, trate a causa). A gestão de risco olha para frente (algo pode dar errado, previna). São o mesmo problema em momentos opostos — e se alimentam: uma NC recorrente vira um risco; um risco que se materializa vira uma NC.
03Quem faz o quê
Quem conhece o processo é quem melhor enxerga onde ele pode falhar — por isso a análise de risco é feita em grupo.
| Papel | No processo de risco |
|---|---|
| Gestor da Qualidade / RT | conduz, mantém o registro de riscos, facilita o FMEA, define critérios e leva os riscos altos à direção. |
| Donos de processo (setores) | identificam os riscos das suas áreas e executam os tratamentos (as barreiras). |
| Equipe multidisciplinar (FMEA) | a análise é em grupo — cada função vê um ângulo; ninguém sozinho enxerga todas as falhas. |
| Alta gestão | define o apetite ao risco (o quanto é aceitável), aprova recursos e revisa na análise crítica. |
| Auditor | só leitura — verifica se os riscos estão identificados, tratados e revisados, e se os controles funcionam. |
| Segurança / SESMT | para riscos ocupacionais (biológico, químico, psicossocial — NR-1), com seu próprio inventário. |
04O processo (ISO 31000)
Um ciclo contínuo. Duas atividades acontecem o tempo todo em volta: monitorar/revisar e comunicar/registrar.
- 1Estabelecer o contexto: definir o escopo (qual processo?), os objetivos e os critérios de risco aceitável × inaceitável.
- 2Identificar: listar o que pode dar errado em cada etapa — de fluxos, histórico de NC, incidentes e da experiência da equipe.
- 3Analisar: estimar probabilidade × severidade (e, no FMEA, a detectabilidade). Resulta num nível ou num número (RPN).
- 4Avaliar: comparar com os critérios: aceitável ou tratar? Priorizar do mais crítico ao menos.
- 5Tratar: colocar barreiras (reduzir prob, reduzir sev, melhorar detecção). Sobra o risco residual — que precisa ser aceitável.
- 6Monitorar, revisar e registrar: acompanhar a eficácia, reavaliar quando muda algo e manter tudo no registro de riscos.
05As ferramentas (com exemplos)
Não há ferramenta única — cada uma serve a um momento. A norma de técnicas (ISO 31010) lista dezenas; abaixo as que rendem no laboratório.
| Ferramenta | Para quê | Quando usar |
|---|---|---|
| Brainstorm / What-if | Identificar | Levantamento rápido; “e se…?” por etapa. |
| Ishikawa (6M) · 5 Porquês | Identificar / analisar | Organizar e cavar as causas (detalhe no guia de NC). |
| FMEA | Analisar / priorizar | Processo repetitivo; ordenar falhas por RPN. |
| Matriz P × S | Avaliar | Priorização visual do portfólio. |
| Bow-tie | Tratar / comunicar | Enxergar barreiras antes e depois do evento. |
| Hierarquia de controles | Tratar | Escolher o controle mais robusto, não o mais fácil. |
Matriz de risco — e o risco residual
FMEA — a lupa sobre cada modo de falha
Exemplo trabalhado — FMEA da triagem. Pontua-se de 1 a 10 e ordena-se pelo RPN; trata-se o maior primeiro. Veja como melhorar a detecção (bipagem) derruba o RPN sem mudar a gravidade:
| Modo de falha | S | O | D | RPN | Barreira → RPN' |
|---|---|---|---|---|---|
| Amostra trocada entre pacientes | 9 | 4 | 6 | 216 | Bipagem obrigatória → 72 |
| Rótulo ilegível | 6 | 3 | 4 | 72 | Etiqueta térmica validada → 24 |
| Volume insuficiente não detectado | 4 | 5 | 3 | 60 | Checklist de aceitação → 30 |
S = severidade · O = ocorrência · D = detecção (1–10) · RPN = S×O×D. A troca de amostra (216, a mais crítica) cai para 72 só com a bipagem.
Bow-tie — causas, evento e barreiras
Hierarquia de controles — a barreira certa
Nem toda barreira vale o mesmo. As de cima agem no perigo e quase não dependem das pessoas; as de baixo dependem de alguém lembrar de acertar todo dia. Regra: suba o máximo que puder.
Exemplo — um registro de riscos preenchido
O produto final é a lista viva de riscos. Um recorte já com o tratamento aplicado (por isso o resíduo é baixo):
| Risco | Etapa | Nível | Controle | Residual |
|---|---|---|---|---|
| Amostra trocada | Triagem | alto | Bipagem + dupla conferência | baixo |
| Liberação com CQ reprovado | Analítica | médio | Gate de CQ/calibração no laudo | baixo |
| Amostra perdida por temperatura | Pré-analítica | médio | Monitor de geladeira + alarme | baixo |
| Laudo ao paciente errado | Pós-analítica | médio | Conferência de contato + portal com token | baixo |
06Atividades, subatividades e inputs/outputs
Cada atividade consome entradas e produz saídas que alimentam a próxima — o que torna o registro rastreável.
A. Contexto e identificação
Inputs
- Escopo / processo alvo
- Fluxo das etapas
- Histórico de NC e incidentes
Atividade + subatividades
- Definir critérios de aceitação
- Mapear pontos de falha por etapa
- Reunir a equipe (brainstorm/FMEA)
Outputs
- Escopo + critérios
- Lista de riscos (registro inicial)
B. Análise e avaliação
Inputs
- Lista de riscos
- Dados (frequência, severidade clínica)
- Controles já existentes
Atividade + subatividades
- Estimar prob × sev (× detecção)
- Calcular nível / RPN
- Comparar com critérios
- Priorizar e decidir tratar
Outputs
- Riscos classificados
- Decisão: aceitar ou tratar
C. Tratamento
Inputs
- Riscos não aceitáveis
- Recursos disponíveis
Atividade + subatividades
- Escolher a barreira (hierarquia)
- Definir responsável e prazo
- Implementar o controle
- Reavaliar o risco residual
Outputs
- Tratamento executado
- Risco residual aceitável
D. Monitoramento e revisão
Inputs
- Registro de riscos
- Indicadores e novas NC
- Mudanças (método/equipamento)
Atividade + subatividades
- Verificar eficácia dos controles
- Detectar riscos novos
- Reavaliar periodicamente
- Levar à análise crítica
Outputs
- Registro atualizado
- Riscos novos incorporados
- Evidência de auditoria
07Como isso vira módulo no Lisya
Honestidade primeiro: uma gestão de risco formal (registro + FMEA + matriz) ainda é gap — mas há base forte e muita matéria-prima de risco já gerada.
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