Hub analítico · exceções
Catálogo de exceções
A rotina bem-comportada precisa de pouco software. O valor de um sistema aparece nas exceções — e a maior parte delas não é exótica: é diária, previsível e, ainda assim, quase nunca modelada. Aqui estão dezesseis, com o que cada uma exige do sistema.
01Exceções da amostra
| Exceção | O que o operador precisa decidir | O que o sistema precisa oferecer |
|---|---|---|
| Volume insuficiente para todos os testes | quais testes fazer com o que há | a ordem de prioridade dos testes por amostra, definida no cadastro — não no improviso |
| Amostra coagulada | refazer ou recoletar | registrar o motivo, cancelar o que não pode ser feito e abrir o pedido de recoleta |
| Amostra hemolisada | quais analitos ainda valem naquela amostra | a regra por interferente × analito, para não invalidar o que é válido |
| Amostra trocada, suspeita | parar tudo daquele par de pacientes | bloqueio imediato, trilha do que já saiu e caminho de investigação |
| Amostra fora da estabilidade | usar com ressalva ou recusar | o prazo por material × analito e o cálculo desde a coleta, não desde a chegada |
| Amostra que não chegou | o pedido existe e a amostra não | diferenciar “não coletada” de “perdida em trânsito” — são problemas diferentes |
O volume insuficiente é uma decisão clínica disfarçada de logística: escolher qual teste fazer com material limitado é priorizar informação clínica. Deixar essa escolha para quem está na bancada, sem critério escrito, é transferir uma decisão médica para o improviso. A ordem de prioridade dos testes pertence ao cadastro e é definida pelo responsável técnico.
02Exceções do equipamento
| Exceção | O que o operador precisa decidir | O que o sistema precisa oferecer |
|---|---|---|
| Equipamento parou no meio da corrida | o que migra para o backup e o que espera | redistribuir a fila e reconduzir o que já tinha sido enviado |
| Reagente acabou | parar aquele analito ou improvisar | consumo por teste, alerta antes de acabar, e bloqueio de roteamento para o que não tem insumo |
| Calibração vencida | liberar ou parar | estado de calibração por analito, legível pela regra de liberação |
| Integração caiu | digitar à mão ou esperar | digitação manual com marcação de origem e alerta por tempo sem contato |
| Resultado chegou sem amostra correspondente | achar de quem é | fila de quarentena visível, com o texto cru preservado |
Guarde: a digitação manual em contingência precisa ficar marcada como manual. Não é uma questão de desconfiança: é o que permite, depois, distinguir um erro de transcrição de um erro de medição — e medir quanto da produção passou por digitação, que é um indicador de risco em si.
03Exceções do resultado
| Exceção | O que o operador precisa decidir | O que o sistema precisa oferecer |
|---|---|---|
| Valor fisiologicamente impossível | investigar antes de reportar | faixa de plausibilidade por analito e retenção automática |
| Dois analitos incoerentes entre si | qual dos dois está errado | regra de coerência entre parâmetros da mesma amostra |
| Valor crítico fora do horário comercial | a quem ligar agora | lista de contato por turno e escalonamento, não um telefone só |
| Resultado chegou depois do laudo liberado | gerar versão ou não reportar | nunca sobrescrever: versão nova e decisão humana registrada |
| Paciente com o mesmo exame duas vezes no dia | os dois valem? qual é o do laudo? | os dois preservados, com hora, e a política de qual reporta |
04Exceções do processo
O operador saiu no meio
O trabalho parcialmente feito precisa ser recuperável por outra pessoa, com registro de quem fez o quê. Sessão perdida não pode significar decisão perdida.
Dois operadores no mesmo resultado
Precisa haver um vencedor previsível, e o outro tem de ver o que aconteceu — não descobrir por cima do próprio trabalho.
Pedido cancelado com exame já em execução
O exame roda ou para? Se rodou, quem paga? O cancelamento precisa saber o estado físico do trabalho.
Exame acrescentado depois da coleta
Há material? Está na estabilidade? É a mesma pergunta do reflexo, chegando pela recepção em vez da regra.
O padrão que atravessa as dezesseis: em quinze das dezesseis exceções, o que o sistema precisa oferecer não é uma tela nova: é um dado que ele não guarda. Prazo de estabilidade por material, ordem de prioridade dos testes, consumo de reagente por teste, estado de calibração, faixa de plausibilidade, contato por turno. A conclusão prática é desconfortável e útil: automatizar exceção é, quase sempre, trabalho de modelagem — e as telas são a parte fácil.
05A pior de todas
A exceção que ninguém percebeu.
As quinze anteriores têm em comum uma virtude: alguém nota. O tubo está coagulado, o equipamento para, o número é absurdo. A décima sexta não tem sintoma — e é a única com potencial de sair no laudo sem qualquer atrito.
| Exceção sem sintoma | Por que passa liso | O que a detecta |
|---|---|---|
| Resultado plausível do paciente errado | o número é normal e a amostra parece certa | delta check — é o único mecanismo que enxerga isso |
| Diluição não aplicada ao cálculo | o valor resultante cai na faixa normal | exigir o fator como campo obrigatório quando houve diluição |
| Unidade mal mapeada na integração | o número é plausível na grandeza errada | conferência unidade por unidade na implantação, e faixa de plausibilidade |
| Resultado de corrida com CQ reprovado | nada no resultado indica isso | vínculo resultado ↔ corrida, legível pela regra |
| Flag ignorada porque não foi capturada | o resultado parece completo | guardar as flags brutas e torná-las avaliáveis |
| Exame do pedido que nunca foi executado | os outros saíram, e o laudo parece pronto | conferir a completude do pedido antes de liberar |
Guarde: note que cada linha da tabela acima é resolvida por um mecanismo que já apareceu neste hub: delta check, fator de diluição persistido, de-para conferido, vínculo com a corrida, flags avaliáveis, completude do pedido. Não é coincidência — é o argumento do hub inteiro. As exceções sem sintoma são exatamente aquelas que só a automação encontra, e é para elas que ela existe.
Resumo do guia: dezesseis exceções diárias, quinze delas resolvidas por um dado que o sistema não guarda — e não por uma tela; volume insuficiente é decisão clínica disfarçada de logística; digitação manual precisa ficar marcada; e a pior exceção é a que não produz sintoma, detectável só por mecanismo automático. Passada a bancada, o resultado encontra a validação clínica.
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