Hub analítico · vocabulário

Pedido, teste, analito, resultado

Dez palavras que a conversa do laboratório usa de forma intercambiável e que, num sistema, são dez entidades com cardinalidades diferentes. Um perfil lipídico é um item no pedido, três dosagens no equipamento e um quarto valor que ninguém mediu — e o modelo precisa saber disso antes da primeira tela.

10 entidadeso exemplo do perfil lipídico26 estadosfluxo, laço e exceção

01As dez entidades

EntidadeO que éExemplo
Atendimentoa visita do paciente, num dia, com um númeroatendimento 88213
Pedidoa requisição médica registradaa receita que o paciente trouxe
Exame solicitadocada item do pedido, no vocabulário comercial“Perfil lipídico”
Painel ou perfilum item que se decompõe em vários testesperfil lipídico, hemograma, função tireoidiana
Teste analíticoa medição concreta que alguém executadosagem de colesterol total
Analitoa substância medidacolesterol
Métodoa técnica usada para medirenzimático colorimétrico
Equipamentoo instrumento onde a medição aconteceo analisador da bioquímica
Amostrao material em que se medeo tubo de soro daquele atendimento
Resultadoo valor produzido, com unidade e classificação196 mg/dL, normal
A

A distinção que mais custa quando falta: exame solicitado × teste analítico. O primeiro é o que o médico pediu e o que o convênio paga; o segundo é o que o equipamento executa. Modelar só o primeiro impede saber em qual analisador cada dosagem rodou; modelar só o segundo quebra o faturamento e o laudo. Os dois precisam existir, com uma relação entre eles.

02O perfil lipídico, decomposto

O exemplo que torna a diferença concreta. Um item no pedido, três medições e um valor que ninguém mediu — foi calculado a partir dos outros três.

Perfil lipídico1 exame solicitado · 1 item no pedidoColesterol totalmedido no equipamentoHDLmedido no equipamentoTriglicerídeosmedido no equipamentoLDLcalculado — ninguém mediuSem equipamento, sem método de mediçãoe não pode ser repetido sozinho — recalcula quando uma fonte mudaSe o triglicerídeo for repetido e mudar, o LDL fica errado a partir dali — e, se o laudo já saiu, precisa ser retificado junto.
O quarto valor é o que expõe o problema. Ele tem unidade, intervalo de referência e aparece no laudo como qualquer outro — mas não tem equipamento, não tem método de medição e não pode ser repetido isoladamente. Um modelo que trata todo resultado como “veio do analisador” não o representa.
Colesterol totalHDLTriglicerídeosLDL
Origemmedidomedidomedidocalculado
Tem equipamento?simsimsimnão
Tem método?simsimsima fórmula é o método
Pode ser repetido sozinho?simsimsimnão — recalcula quando as fontes mudam
Depende de outro resultado?nãonãonãodos três anteriores
Se uma fonte for retificadaindependenteindependenteindependenteprecisa ser recalculado e também retificado
!

A armadilha do recálculo: se o triglicerídeo for repetido e mudar, o LDL está errado a partir daquele instante — e, se o laudo já saiu, ele precisa ser retificado junto. Sistemas que guardam o calculado como um número solto, sem registrar de quais resultados ele veio, não conseguem nem detectar isso.

03As cardinalidades

Onde os modelos ingênuos quebram: quase nenhuma dessas relações é de um para um.

RelaçãoCardinalidadePor quê
Pedido → exame solicitado1 : Num pedido tem vários itens
Exame solicitado → teste analítico1 : Num painel vira várias medições
Teste analítico → amostraN : 1vários testes rodam na mesma amostra
Amostra → teste analítico1 : Na recíproca: um tubo atende vários testes
Teste analítico → resultado1 : Ncada repetição e cada diluição produz um resultado; o último é o vigente
Resultado → resultadoN : Nresultados calculados dependem de outros resultados
Teste analítico → equipamentoN : 1 por execuçãomas pode mudar de equipamento entre uma execução e outra
Exame solicitado → laudoN : 1vários itens compõem um laudo; e um laudo pode sair parcial

Guarde: a relação que mais surpreende é teste analítico → resultado como 1 : N. A intuição diz que um teste tem um resultado. Na prática, ele tem a primeira medição, a repetição, a medição diluída — e o sistema precisa guardar todas, marcando qual é a vigente. Guardar só a última é perder a história que a auditoria pede.

04A máquina de estados

Vinte e seis estados possíveis, em três naturezas: o fluxo que todo exame percorre, os laços que o fazem voltar e as exceções que o tiram do caminho.

SolicitadoColetadoTriadoDisponívelEm filaNo equipamentoResultadoRegrasValidaçãoLiberadoLAÇOS — VOLTAM À FILARepetiçãoDiluiçãoReflexoo exame percorre o trecho de novoe o resultado anterior continua registradoEXCEÇÕES — O EXAME SAI DO CAMINHOCanceladoMaterial inadequadoInsuficienteEquip. indisponívelSem reagenteFalha técnicaInconclusivoRecoletaLaços e exceções não cabem no mesmo campo do estado principal: um exame pode estar “validado” e ter um reflexo correndo em paralelo.
Os dez estados de cima são o caminho. Os três do meio são laços — voltam para “em fila” e o exame percorre o trecho de novo. Os oito de baixo são saídas: o exame para, e alguém precisa decidir o que fazer.
1Solicitadofluxoo exame existe no pedido
2Aguardando coletafluxoo material ainda não foi obtido
3Coletadofluxoa amostra existe
4Recebidofluxochegou ao laboratório
5Triadofluxofoi avaliado e aceito
6Disponível para análisefluxopreparado e liberado para trabalhar
7Em filafluxoatribuído a um destino analítico
8Enviado ao equipamentofluxoa ordem foi transmitida
9Carregadofluxoo analisador tem a amostra
10Em processamentofluxoa medição está acontecendo
11Resultado recebidofluxoo número chegou, ainda bruto
12Pendente de regrafluxoas regras estão avaliando ou pediram ação
13Aguardando validaçãofluxotecnicamente pronto, esperando olhar humano
14Validadofluxodeclarado tecnicamente sólido
15Liberadofluxoassinado e entregue
16Repetição solicitadalaçovai medir de novo
17Diluição solicitadalaçovai medir diluído
18Reflexo abertolaçogerou outro exame
19Canceladoexceçãonão será realizado
20Material inadequadoexceçãoa amostra não serve para este teste
21Amostra insuficienteexceçãonão há volume
22Equipamento indisponívelexceçãoo destino saiu de operação
23Reagente indisponívelexceçãofalta insumo para medir
24Falha técnicaexceçãoerro durante a execução
25Resultado inconclusivoexceçãomediu e não conclui
26Recoleta necessáriaexceçãoprecisa de nova amostra do paciente
!

O erro de modelagem mais comum: tratar os laços e as exceções como valores do mesmo campo de status. Um exame pode estar “em processamento” e ter uma “repetição solicitada” ao mesmo tempo; pode estar “validado” e ter um “reflexo aberto” correndo em paralelo. Um único campo de estado não representa isso — e a operação passa a manter a informação fora do sistema.

Resumo do guia: dez entidades distintas, com o par exame solicitado × teste analítico como a separação mais cara de ignorar; o resultado calculado como caso que quebra modelos ingênuos; cardinalidades quase nunca de um para um; e vinte e seis estados em três naturezas que não cabem num campo só. Com o vocabulário em pé, começa a orquestração: organizar o trabalho.

Ver listas de trabalho e filas →