Hub de coleta · o que dá errado
Hemólise e não conformidades
Uma amostra pode chegar à bancada de dezessete maneiras diferentes de errada. A característica que as une e as torna perigosas: quase nenhuma se anuncia. O equipamento processa o que recebe e devolve um número — cabe ao laboratório decidir, antes disso, se aquele material merecia ser processado.
01Hemólise
Hemólise é o rompimento das hemácias, que derrama para fora delas o conteúdo que deveria ficar dentro. O soro ou plasma ganha uma tonalidade avermelhada — quanto mais intensa, maior o grau. É a não conformidade mais frequente da fase pré-analítica em praticamente todo laboratório.
Por que altera o resultado
O interior da hemácia tem concentrações muito diferentes do plasma. Potássio, por exemplo, é dezenas de vezes mais concentrado dentro da célula — romper a célula despeja potássio no plasma e o valor medido dispara.
Por que atrapalha a medição
A hemoglobina liberada é colorida e absorve luz. Muitos métodos são colorimétricos, então a cor da amostra interfere na leitura, mesmo em analitos que não estavam dentro da hemácia.
Por que é enganosa
Um potássio de 6,2 por hemólise tem exatamente a mesma aparência de um potássio de 6,2 verdadeiro. Sem o índice de hemólise, ninguém distingue — e hipercalemia é conduta de urgência.
Por que é medível
Os analisadores modernos calculam índices de interferência — hemólise, icterícia e lipemia — a partir da própria leitura óptica. Isso transforma uma avaliação visual e subjetiva em número.
Guarde: o índice de hemólise é o que permite tratar o assunto com critério em vez de olho. Com ele, o laboratório define, por exame, a partir de que grau rejeita, a partir de que grau libera com ressalva e abaixo de que grau ignora — porque a sensibilidade à hemólise varia enormemente entre os exames.
02As causas, e onde elas estão
A hemólise quase sempre nasce na coleta ou no manuseio imediato. Mapear causa por causa é o que permite atacá-la — e ela é, de longe, o indicador que mais responde a treinamento.
| Causa | Mecanismo | Prevenção |
|---|---|---|
| Agulha de calibre inadequado | força de cisalhamento ao passar o sangue por um lúmen estreito | calibre compatível com a veia e com o volume a coletar |
| Punção laboriosa, com várias tentativas | trauma ao vaso e ao sangue coletado | limite de tentativas e encaminhamento para profissional designado |
| Garrote prolongado | estase e hemoconcentração, com fragilização celular | soltar o garrote assim que o sangue flui |
| Aspiração forçada com seringa | pressão negativa excessiva rompe as células | preferir sistema a vácuo quando possível; aspirar devagar |
| Homogeneização vigorosa | agitar em vez de inverter suavemente rompe hemácias | inversões suaves, no número indicado pelo fabricante |
| Transferência entre tubos | passar sangue de uma seringa para o tubo através da agulha | evitar transferência; usar dispositivo apropriado |
| Centrifugação inadequada | força excessiva ou recentrifugação | programa validado por tipo de tubo, registrado |
| Temperatura extrema no transporte | congelamento acidental rompe as células | acondicionamento correto e refrigerante que não encoste no tubo |
| Álcool ainda úmido na punção | o antisséptico entra em contato com o sangue | esperar a secagem completa antes de puncionar |
03As dezessete não conformidades
Para cada uma: causa provável, impacto, conduta, se exige recoleta e qual indicador ela alimenta.
Coágulo em tubo com anticoagulante
Causa: homogeneização tardia ou insuficiente após encher o tubo; punção lenta.
Impacto: contagem de células falsamente baixa; equipamento pode aspirar o coágulo.
Conduta: rejeitar — não há correção possível. Recoleta: sempre.
Indicador: taxa de amostras coaguladas.
Volume insuficiente (QNS)
Causa: veia difícil, tubo com vácuo comprometido, espaço morto do dispositivo.
Impacto: exames não realizáveis; em citrato, altera a proporção e o resultado.
Conduta: avaliar quais exames cabem; rejeitar o que não couber. Recoleta: em geral, para o que faltou.
Indicador: taxa de QNS.
Tubo incorreto para o exame
Causa: mapa de coleta ausente ou não seguido; exame que mudou de tubo.
Impacto: aditivo incompatível com o método — o resultado seria inválido.
Conduta: rejeitar. Recoleta: sempre.
Indicador: taxa de tubo incorreto.
Identificação incorreta
Causa: etiqueta de outro paciente; conferência pulada.
Impacto: o mais grave de todos: resultado atribuído à pessoa errada.
Conduta: rejeitar e abrir investigação — nunca corrigir a etiqueta. Recoleta: sempre.
Indicador: eventos de identificação incorreta (meta zero).
Amostra sem etiqueta
Causa: tubo saiu da sala sem identificação.
Impacto: amostra órfã, sem vínculo possível.
Conduta: descartar — não se deve inferir de quem é. Recoleta: sempre.
Indicador: amostras não identificadas.
Etiqueta ilegível
Causa: impressão fraca, ribbon no fim, etiqueta amassada ou molhada.
Impacto: impede a leitura automática e obriga digitação, com risco de erro.
Conduta: reimprimir com conferência, quando o vínculo é inequívoco. Recoleta: raramente.
Indicador: taxa de releitura manual.
Hemólise
Causa: múltiplas — ver seção dedicada.
Impacto: altera potássio e várias dosagens, e interfere opticamente.
Conduta: depende do exame e do grau — rejeitar, ou liberar com ressalva. Recoleta: frequente.
Indicador: taxa de hemólise — o indicador-chave da coleta.
Lipemia
Causa: amostra rica em gordura, em geral por refeição recente.
Impacto: interferência óptica em vários métodos.
Conduta: avaliar por exame; alguns laboratórios ultracentrifugam. Recoleta: às vezes, com jejum adequado.
Indicador: taxa de amostras lipêmicas.
Icterícia da amostra
Causa: concentração elevada de bilirrubina no paciente.
Impacto: interferência em alguns métodos — é condição do paciente, não erro.
Conduta: registrar como característica; liberar com ressalva quando aplicável. Recoleta: não resolve — é do paciente.
Indicador: acompanhado junto dos índices de interferência.
Contaminação da amostra
Causa: técnica inadequada, sítio errado, frasco não estéril quando exigido.
Impacto: em microbiologia, resultado enganoso com nome de bactéria.
Conduta: rejeitar ou sinalizar cultura contaminada. Recoleta: sempre, em cultura.
Indicador: taxa de hemocultura contaminada.
Amostra diluída por infusão
Causa: coleta em acesso com soro correndo, sem descarte inicial.
Impacto: valores absurdamente baixos, às vezes tratados como reais.
Conduta: rejeitar quando a suspeita existe. Recoleta: sempre.
Indicador: específico de coleta hospitalar.
Transporte em temperatura inadequada
Causa: caixa sem refrigerante suficiente, exposição ao calor ou congelamento acidental.
Impacto: degradação de analitos, sem sinal visível.
Conduta: rejeitar conforme critério escrito; registrar a condição de chegada. Recoleta: frequente.
Indicador: não conformidades de transporte.
Tempo excedido até o processamento
Causa: espera na fila de centrifugação; rota perdida.
Impacto: glicose cai, potássio sobe, analitos instáveis se degradam.
Conduta: rejeitar quando fora da janela de estabilidade. Recoleta: sim.
Indicador: tempo coleta → centrifugação.
Tubo vencido
Causa: estoque não rotacionado no box.
Impacto: vácuo reduzido e aditivo com eficácia comprometida.
Conduta: rejeitar; investigar o lote e o box. Recoleta: sim.
Indicador: ocorrências de insumo vencido.
Exposição à luz
Causa: analito fotossensível transportado sem proteção.
Impacto: resultado falsamente baixo, sem nenhum sinal.
Conduta: rejeitar quando o exame exige proteção e ela não foi usada. Recoleta: sim.
Indicador: não conformidades por acondicionamento.
Amostra extraviada
Causa: tubo perdido entre coleta, transporte e setor.
Impacto: exame não realizado, descoberto tarde.
Conduta: investigar com a trilha antes de recoletar. Recoleta: sim.
Indicador: amostras sem evento há N horas.
Amostra duplicada
Causa: dois tubos do mesmo material para o mesmo pedido.
Impacto: retrabalho, e risco de liberar resultados divergentes.
Conduta: consolidar no sistema e descartar o excedente com registro. Recoleta: não.
Indicador: duplicidades por período.
04Os três desfechos
A decisão da triagem não é binária, e sistemas que a modelam como binária empurram a operação para a informalidade.
| Desfecho | Quando se aplica | O que precisa acontecer |
|---|---|---|
| Aceitar | a amostra atende aos critérios | seguir o fluxo normal |
| Aceitar com ressalva | há uma condição que pode afetar alguns exames, mas a informação ainda é útil ao médico | a ressalva precisa constar no laudo, vinculada aos exames afetados — não numa observação genérica |
| Rejeitar | a amostra não permite resultado confiável | registrar motivo padronizado, comunicar rápido e decidir sobre recoleta |
A comunicação é parte da conduta: rejeitar sem avisar rápido transforma um problema de amostra em um problema de paciente. Uma rejeição comunicada em minutos pode ser resolvida com o paciente ainda na unidade; comunicada no dia seguinte, vira telefonema, deslocamento e desgaste. O tempo entre rejeitar e comunicar é, ele próprio, um indicador.
Motivo padronizado, não campo de texto: se o motivo da rejeição for digitado livremente, o mesmo problema vira “hemolisada”, “hemólise”, “amostra hemol.” e “hemolise +++” — e nenhum relatório consegue contar. O motivo precisa ser um cadastro com lista fechada, e uma amostra pode ter mais de um motivo ao mesmo tempo.
Resumo do guia: a hemólise é a não conformidade dominante, tem nove causas conhecidas e nenhuma prevenção tecnológica; as outras dezesseis têm causa, conduta e indicador próprios; e a triagem tem três desfechos, com motivo padronizado e comunicação rápida. Falta transformar isso em medida.
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