Hub de triagem · conferência
A conferência
Dezoito critérios, em seis famílias. Eles não têm o mesmo peso nem o mesmo remédio: alguns são absolutos — errou, acabou —, outros admitem julgamento por exame, e alguns nem sequer são defeito da amostra, mas condição do paciente. Saber qual é qual é o que separa uma triagem com critério de uma triagem por bom senso.
01As seis famílias
Agrupar os critérios por natureza ajuda a entender por que cada um existe e o que fazer quando falha.
02Os dezoito critérios
O que observar, o problema que ele revela e a conduta esperada.
Presença de identificação
IdentidadeVerificar: a amostra tem etiqueta, e ela está legível.
Problema: tubo sem etiqueta ou com código ilegível.
Conduta: segregar; sem vínculo inequívoco, não se infere de quem é.
Correspondência com o pedido
IdentidadeVerificar: o código lido corresponde a um pedido conhecido.
Problema: tubo sem pedido, ou pedido sem tubo.
Conduta: abrir exceção; nunca criar cadastro para destravar a produção.
Paciente correto
IdentidadeVerificar: os dados da etiqueta batem com os do cadastro.
Problema: divergência de nome ou data de nascimento.
Conduta: reter e investigar — é evento sentinela, não ajuste de digitação.
Material correto
CompatibilidadeVerificar: o tipo de material corresponde ao exigido pelos exames.
Problema: soro onde o exame pede sangue total, por exemplo.
Conduta: rejeitar — não há conversão possível depois.
Recipiente correto
CompatibilidadeVerificar: o tubo é o do aditivo exigido.
Problema: aditivo incompatível com o método.
Conduta: rejeitar; o resultado seria inválido.
Número de tubos
CompatibilidadeVerificar: chegaram todos os tubos previstos no mapa de coleta.
Problema: falta um tubo do conjunto.
Conduta: aceitar o que veio e abrir pendência do que falta.
Volume suficiente
QuantidadeVerificar: volume para os exames vinculados, com margem para repetição.
Problema: QNS — quantidade não suficiente.
Conduta: priorizar exames, ou rejeitar o que não couber.
Proporção com o aditivo
QuantidadeVerificar: em tubos onde a razão é parte do método, o enchimento até a marca.
Problema: citrato subpreenchido.
Conduta: rejeitar — o resultado sairia errado com aparência de certo.
Hemólise
IntegridadeVerificar: coloração do soro ou plasma; idealmente o índice medido.
Problema: conteúdo celular liberado no plasma.
Conduta: depende do exame e do grau: rejeitar ou liberar com ressalva.
Coágulo
IntegridadeVerificar: presença de coágulo em tubo com anticoagulante.
Problema: homogeneização tardia na coleta.
Conduta: rejeitar; a contagem celular ficaria falsamente baixa.
Lipemia
IntegridadeVerificar: aspecto leitoso da amostra.
Problema: interferência óptica em vários métodos.
Conduta: avaliar por exame; alguns serviços ultracentrifugam.
Icterícia
IntegridadeVerificar: coloração por bilirrubina elevada.
Problema: interferência em alguns métodos — é condição do paciente.
Conduta: registrar como característica e liberar com ressalva quando aplicável.
Vazamento ou recipiente danificado
IntegridadeVerificar: integridade física do tubo e da tampa.
Problema: perda de material e risco biológico.
Conduta: rejeitar e tratar como incidente de biossegurança.
Contaminação
IntegridadeVerificar: aspecto, e em microbiologia a técnica declarada.
Problema: flora local ou material estranho na amostra.
Conduta: rejeitar; em cultura, resultado contaminado é enganoso, não só ruim.
Temperatura de chegada
CondiçãoVerificar: condição da caixa, presença de refrigerante, aspecto de congelamento.
Problema: cadeia de frio rompida — sem sinal visível na amostra.
Conduta: aplicar critério escrito; registrar a condição sempre.
Proteção da luz
CondiçãoVerificar: quando o exame exige, se a amostra veio abrigada.
Problema: degradação de analito fotossensível.
Conduta: rejeitar quando exigido e não cumprido.
Tempo desde a coleta
TempoVerificar: intervalo entre a hora da coleta e a chegada.
Problema: janela de estabilidade estourada.
Conduta: rejeitar; a amostra pode parecer perfeita e não representar mais o paciente.
Janela do exame
TempoVerificar: exames com horário definido foram colhidos no horário.
Problema: valor incomparável com a faixa de referência.
Conduta: rejeitar ou registrar a não conformidade no laudo.
03Absolutos e relativos
Nem todo critério admite negociação. Separá-los evita os dois erros opostos: rejeitar demais, criando recoleta desnecessária, e aceitar demais, liberando resultado que não se sustenta.
| Natureza | Critérios | Como decidir |
|---|---|---|
| Absoluto — não há correção | identificação ausente ou divergente, tubo com aditivo errado, material errado, coágulo em tubo de contagem | rejeição direta, com registro; qualquer flexibilização aqui é risco ao paciente |
| Quantitativo — depende de limiar | volume, proporção com o aditivo, tempo desde a coleta | o limiar vem do método e do cadastro do exame, não do julgamento do momento |
| Graduável — depende do exame | hemólise, lipemia, icterícia | o mesmo grau rejeita um exame e é irrelevante para outro; exige tabela por exame |
| Condicional — depende de registro | temperatura de chegada, proteção da luz | sem registro da condição, não há como decidir nem como atribuir causa depois |
| Não é defeito da amostra | icterícia, e em parte a lipemia de origem metabólica | é característica do paciente: registra-se e sinaliza-se no laudo, não se pede recoleta |
O erro de tratar tudo como absoluto: rejeitar toda amostra com qualquer grau de hemólise parece rigoroso e é tecnicamente errado: a maioria dos exames tolera graus baixos sem alteração relevante. O efeito prático é recoleta desnecessária, paciente furado de novo e uma taxa de rejeição que não diz nada sobre a qualidade real do processo.
04Medir em vez de olhar
Hemólise, lipemia e icterícia eram, historicamente, avaliadas a olho — o que torna a decisão dependente da pessoa, da luz da sala e do cansaço do turno. Os analisadores modernos calculam índices de interferência a partir da própria leitura óptica, transformando julgamento em número.
| Sem índice | Com índice |
|---|---|
| dois profissionais discordam sobre a mesma amostra | o mesmo valor produz a mesma decisão, sempre |
| o critério vive na experiência de cada um | o critério vive no cadastro, por exame |
| “rejeitada por hemólise” é tudo que se sabe | sabe-se o grau, e dá para estratificar e comparar |
| não dá para acompanhar tendência | dá para medir se o treinamento funcionou |
| o laudo diz “amostra hemolisada” | o laudo pode dizer o grau e quais exames foram afetados |
A consequência para o sistema: se o índice existe no equipamento, ele precisa chegar ao LIS e ficar na amostra — não só no resultado. É o que permite decidir automaticamente, alimentar indicador e imprimir a ressalva certa no laudo. Sem essa passagem, a informação existe e não é usada, que é o desperdício mais comum da integração com equipamentos.
Resumo do guia: dezoito critérios em seis famílias, avaliados na ordem certa — identidade primeiro; alguns absolutos, outros graduáveis por exame e outros que nem são defeito da amostra; e a mudança de patamar vem de substituir o olho pelo índice medido. Avaliada a amostra, vem a decisão.
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