Hub de triagem · decisão

Aceite, pendência e rejeição

A triagem tem três desfechos, e o que a maioria dos sistemas esquece é o do meio. Rejeitar é definitivo: a amostra não serve. Pendenciar é reversível: a amostra serve, falta um dado. Tratar as duas como a mesma coisa faz o laboratório descartar material recuperável — e recoletar paciente à toa.

3 desfechosrejeição × pendência18 motivosa máquina de estados

01Os três desfechos

DesfechoQuandoO que acontece com a amostraO que aparece no laudo
Aceitaatende a todos os critériossegue o fluxo normalnada de especial
Aceita com ressalvahá condição que pode afetar alguns exames, mas a informação ainda é útilé processada, com a condição registradaa ressalva, vinculada aos exames afetados — não uma observação genérica
Pendentefalta um dado, uma autorização ou um material — a amostra em si está boafica retida, aguardando resolução; o relógio da estabilidade continua correndonada, se resolvida a tempo
Rejeitadanão permite resultado confiável e não há correção possívelsai do fluxo; decide-se sobre recoletao exame não é liberado; o motivo é comunicado
!

A pendência tem prazo próprio: o detalhe que quase sempre falta: enquanto a amostra está pendente, a estabilidade não para. Uma pendência aberta às 8h e resolvida às 17h pode ter transformado uma amostra boa em amostra vencida. Pendência precisa de prazo máximo por exame, derivado da estabilidade, e de alerta antes de estourar.

02A árvore de decisão

A sequência que leva a cada desfecho. Repare que a primeira bifurcação não é sobre qualidade: é sobre identidade — e ela só tem uma saída quando falha.

Amostra recebidaA identidade é inequívoca?nãoREJEITARO problema está na informação?simPENDENCIARA amostra permite resultado confiável?nãoREJEITARHá condição a sinalizar no laudo?simACEITAR COM RESSALVAACEITARnãoA pergunta do meio é a que define o desfecho reversível: problema de informação se resolve sem furar o paciente de novo.
A pergunta que define o ramo do meio: o problema está na amostra ou está na informação? Problema de informação é pendência, porque se resolve sem furar o paciente de novo. Problema de amostra é rejeição.

03Os dezoito motivos de rejeição

Com causa, impacto, necessidade de recoleta e quem precisa ser avisado.

1

Identificação incorreta

Causa: etiqueta de outro paciente; conferência pulada na coleta.

Impacto: resultado atribuído à pessoa errada — evento sentinela.

Recoleta: sempre. Comunicar: imediatamente, à origem e à qualidade.

2

Amostra sem identificação

Causa: tubo saiu da coleta sem etiqueta.

Impacto: amostra órfã, sem vínculo possível.

Recoleta: sempre. Comunicar: à origem, com a remessa identificada.

3

Divergência de paciente

Causa: dados da etiqueta não batem com o cadastro.

Impacto: risco de troca; não se corrige etiqueta.

Recoleta: sempre. Comunicar: imediatamente; abre investigação.

4

Tubo ou aditivo incorreto

Causa: mapa de coleta não seguido; exame que mudou de tubo.

Impacto: aditivo incompatível com o método.

Recoleta: sempre. Comunicar: à origem, com o exame afetado.

5

Recipiente inadequado

Causa: frasco não estéril onde se exigia estéril, por exemplo.

Impacto: em cultura, resultado enganoso.

Recoleta: sempre. Comunicar: à origem.

6

Volume insuficiente

Causa: punção difícil, vácuo comprometido, espaço morto do equipo.

Impacto: exames não realizáveis; sem margem para repetir.

Recoleta: para o que faltou. Comunicar: à origem e a quem solicitou.

7

Proporção inadequada

Causa: tubo de citrato subpreenchido.

Impacto: resultado errado com aparência de certo.

Recoleta: sempre. Comunicar: à origem — é erro corrigível por treinamento.

8

Coágulo

Causa: homogeneização tardia após encher o tubo.

Impacto: contagem celular falsamente baixa; risco ao equipamento.

Recoleta: sempre. Comunicar: à origem, com o coletador identificado.

9

Hemólise acima do tolerado

Causa: calibre, garrote, punção laboriosa, agitação, centrifugação.

Impacto: altera potássio e interfere opticamente.

Recoleta: conforme exame e grau. Comunicar: à origem, com o índice medido.

10

Congelamento indevido

Causa: refrigerante em contato direto com o tubo.

Impacto: rompimento celular; amostra inutilizada.

Recoleta: sempre. Comunicar: à logística, não só à coleta.

11

Temperatura inadequada

Causa: caixa sem refrigerante suficiente ou exposta.

Impacto: degradação sem sinal visível.

Recoleta: conforme critério escrito. Comunicar: à logística, com a condição de chegada registrada.

12

Atraso no transporte

Causa: rota perdida, trânsito, baldeação em hub.

Impacto: janela de estabilidade estourada.

Recoleta: sim. Comunicar: à logística e à origem.

13

Material vazado

Causa: tampa mal fechada, tubo danificado.

Impacto: perda de material e risco biológico.

Recoleta: sempre. Comunicar: à origem e à biossegurança.

14

Recipiente quebrado

Causa: acondicionamento inadequado no transporte.

Impacto: perda total e contaminação da remessa.

Recoleta: sempre. Comunicar: à logística, como incidente.

15

Contaminação

Causa: técnica inadequada, sítio errado, frasco aberto.

Impacto: em microbiologia, laudo enganoso com nome de bactéria.

Recoleta: sempre. Comunicar: à origem, com orientação técnica.

16

Estabilidade ultrapassada

Causa: tempo total entre coleta e processamento.

Impacto: a amostra não representa mais o paciente.

Recoleta: sim. Comunicar: à origem, com o tempo apurado.

17

Coleta fora do horário exigido

Causa: exame com janela específica colhido fora dela.

Impacto: valor incomparável com a faixa de referência.

Recoleta: sim. Comunicar: à origem e ao solicitante.

18

Ausência de informação obrigatória

Causa: dado clínico exigido pelo exame não foi capturado.

Impacto: o exame roda e não pode ser interpretado.

Recoleta: em geral não — é pendência. Comunicar: à origem, para complementar.

A

A coluna que muda a gestão: “comunicar”. Repare que nem toda rejeição se comunica à coleta: congelamento indevido, temperatura e atraso são problemas de logística, e avisar o coletador sobre eles é treinar a pessoa errada. Classificar a rejeição pela origem do problema, e não só pelo sintoma, é o que faz a ação corretiva acertar o alvo.

04A pendência

Pendência é o estado em que a amostra é boa e falta alguma coisa em volta dela. São situações recuperáveis, e por isso merecem tratamento próprio em vez de virarem rejeição por falta de categoria.

Falta o pedido

O tubo chegou e não há requisição correspondente. Reter e cobrar — nunca cadastrar por conta própria só para destravar.

Divergência cadastral

Um dado do paciente não bate e a correção é possível: grafia do nome, dígito de documento. Distinto de divergência de identidade, que é rejeição.

Exame sem autorização

O convênio exige autorização que ainda não saiu. A amostra fica retida, com o relógio correndo.

Material adicional esperado

Parte do conjunto chegou. Aceita-se o que veio e pendencia-se o que falta, em vez de travar tudo.

Informação clínica ausente

O exame precisa de medicação em uso, peso ou data da última menstruação para ser interpretado.

Origem não confirmada

A amostra chegou sem identificação clara da unidade que enviou, o que impede atribuir divergências.

RecebidaPendentecom prazo derivado da estabilidadeResolvida → aceitao dado chegou a tempoPrazo estourou → rejeitadae o motivo registra que houve pendência antesSem prazo, a pendência vira estacionamento: a amostra espera até vencer e a rejeição aparece como se fosse problema de qualidade.
A pendência tem duas saídas, e as duas precisam ser possíveis no sistema. A da esquerda é a razão de ela existir; a da direita é o que acontece quando o prazo estoura — e aí o motivo da rejeição deve registrar que houve pendência antes.

05Como registrar

Três regras de modelagem que decidem se a rejeição vira aprendizado ou vira ruído.

RegraPor quêO que acontece sem ela
Motivo é cadastro, não texto livrepara contar, agrupar e fazer Pareto“hemolisada”, “hemólise”, “hemol +++” viram três problemas diferentes e nenhum relatório fecha
Uma amostra pode ter vários motivosuma amostra hemolisada e com volume curto tem duas causas distintasguarda-se só a primeira, e a segunda desaparece da estatística
O motivo carrega a origemcoleta, transporte, processamento ou pacientea ação corretiva vai para o setor errado e o problema volta
O desfecho é evento, não colunaa trilha precisa mostrar quando foi rejeitada e por quemsobrescreve-se o estado e perde-se a história da decisão
Comunicação tem carimbo próprioo tempo entre rejeitar e avisar é indicadornão se sabe se a demora foi da decisão ou do aviso

Guarde: a comunicação é parte da conduta, não um follow-up. Uma rejeição avisada em minutos pode ser resolvida com o paciente ainda na unidade; avisada no dia seguinte, vira deslocamento, nova punção e desgaste. O tempo entre rejeitar e comunicar merece indicador próprio.

Resumo do guia: três desfechos, com a pendência como estado próprio e com prazo derivado da estabilidade; dezoito motivos de rejeição classificados também pela origem do problema; e cinco regras de registro que separam aprendizado de ruído. Aceita a amostra, começa o preparo.

Ver preparo e centrifugação →