Uma amostra hemolisada que passou pela triagem. Um laudo liberado com valor de referência errado. Um equipamento fora de calibração usado por dois dias sem ninguém perceber. Erros acontecem em todo laboratório — a pergunta que separa uma operação madura de uma amadora não é "vocês erram?", é "o que vocês fazem depois que erram?". É exatamente isso que o registro de não conformidade (RNC) existe para responder: transformar cada falha em um evento rastreado, investigado até a causa raiz e fechado com uma ação que impede a repetição.
O que é uma não conformidade — e o que não é
Uma não conformidade (NC) é qualquer desvio de um requisito estabelecido: um POP não seguido, uma especificação de equipamento fora da faixa, um prazo de entrega estourado, um resultado liberado sem a assinatura correta. O RNC é o documento — hoje, idealmente, um registro no sistema — que formaliza esse desvio: o que aconteceu, quem identificou, qual o impacto e, principalmente, o que foi feito a respeito.
É importante não confundir NC com "erro grave" ou "evento adverso". A maioria das não conformidades de um laboratório é pequena e sem dano ao paciente: uma etiqueta impressa com fonte errada, um reagente que chegou com validade curta, um técnico que esqueceu de registrar a temperatura da geladeira num dia. O valor do RNC está justamente em capturar esses eventos antes que eles se acumulem e virem um problema sério.
RNC não é punição
Se o RNC vira sinônimo de "quem errou vai ser cobrado", a equipe para de registrar — e você perde visibilidade justamente sobre o que mais precisa ser visto. Cultura de qualidade madura trata a NC como dado, não como culpa.
Como registrar um RNC na prática
Um RNC bem escrito responde a perguntas objetivas — nada de parágrafo vago. O mínimo que todo registro precisa conter:
- O que aconteceu — descrição factual do desvio, sem interpretação ainda ("amostra recebida sem identificação do horário de coleta", não "erro da coleta").
- Onde e quando — setor, etapa do processo (pré-analítica, analítica, pós-analítica) e data/hora do evento.
- Quem identificou — nem sempre é quem causou; muitas vezes a NC é pega por outro setor a jusante.
- Classificação de risco — o desvio chegou a afetar o paciente (real) ou foi contido antes (potencial)?
- Contenção imediata — o que foi feito na hora para impedir que o problema avançasse (ex.: reter o laudo, recolher o lote, refazer a coleta).
- Responsável pela investigação e prazo — sem dono e sem prazo, o RNC vira arquivo morto.
Um ponto crítico: quem encontra registra na hora, não no fim do plantão. Um RNC lançado dias depois perde detalhe e, na prática, nunca é lançado — vira "a gente resolveu ali mesmo" e a organização não aprende nada com o episódio.
Facilite o registro, não burocratize
Se abrir um RNC exige preencher 20 campos ou pedir senha de supervisor, a equipe vai evitar. O formulário de abertura deve levar menos de 2 minutos; a investigação detalhada vem depois, com outro responsável.
Análise de causa raiz: 5 porquês e Ishikawa
Registrar o desvio é só a metade do trabalho. Sem análise de causa raiz, o RNC vira uma lista de sintomas tratados um a um — e o mesmo problema volta em três meses com outro nome. Duas ferramentas simples cobrem a grande maioria dos casos de um laboratório clínico.
Os 5 porquês
É a técnica mais rápida e mais usada: perguntar "por quê?" repetidamente até parar de encontrar uma causa de processo (e não uma causa de pessoa). Exemplo real de laboratório:
- Por que o laudo saiu com o valor de referência errado? Porque o parâmetro estava configurado para a faixa antiga.
- Por que estava com a faixa antiga? Porque o fabricante mudou o valor de referência do kit e ninguém atualizou o cadastro.
- Por que ninguém atualizou? Porque não existe um responsável definido para monitorar comunicados de fabricante.
- Por que não existe esse responsável? Porque o processo de atualização de parâmetro nunca foi formalizado em POP.
- Por que nunca foi formalizado? Porque o laboratório cresceu rápido e a gestão da qualidade não acompanhou a expansão de exames.
Note a diferença: se a investigação parasse no primeiro "por quê", a ação corretiva seria "avisar o técnico para corrigir o cadastro" — resolve o sintoma, não a causa. Ao chegar ao quinto nível, a ação vira "criar um responsável e um POP de atualização de parâmetro por comunicado de fabricante" — isso sim previne a repetição.
Diagrama de Ishikawa (espinha de peixe)
Para não conformidades mais complexas — com múltiplas causas prováveis — o diagrama de Ishikawa organiza a investigação em seis categorias clássicas (os "6M"): Método, Máquina, Mão de obra, Material, Meio ambiente e Medição. No laboratório, isso se traduz assim:
Os 6M aplicados a uma não conformidade de laboratório
| Categoria (6M) | Pergunta a fazer |
|---|---|
| Método | O POP existe, está atualizado e foi seguido como descrito? |
| Máquina | O equipamento estava calibrado, dentro da manutenção preventiva e sem alerta pendente? |
| Mão de obra | O profissional foi treinado e teve competência avaliada para a atividade? |
| Material | O reagente/insumo estava dentro da validade, do lote e da conservação corretos? |
| Meio ambiente | Temperatura, umidade, iluminação e organização do posto de trabalho eram adequadas? |
| Medição | O instrumento de medição/CQ usado para checar o processo estava confiável? |
Na prática, a maioria dos laboratórios usa os 5 porquês para o dia a dia (NC simples, resposta rápida) e reserva o Ishikawa para eventos recorrentes ou de maior impacto, onde vale reunir a equipe e mapear várias frentes de causa ao mesmo tempo.
Do erro à melhoria: o ciclo completo do RNC
Identificação
Qualquer pessoa detecta o desvio e registra na hora.
Contenção
Ação imediata para impedir que o problema avance.
Causa raiz
5 porquês ou Ishikawa — vai além do sintoma.
Ação corretiva
Elimina a causa identificada, com dono e prazo.
Verificação
A ação funcionou? A NC parou de se repetir?
Ação preventiva
Aplica o aprendizado a processos parecidos, antes que falhem.
Ação corretiva x ação preventiva: a confusão mais comum
É o erro conceitual mais frequente em auditoria: tratar "ação corretiva" como sinônimo de "correção". Não é. Os três termos são distintos e cumprem papéis diferentes.
Correção x ação corretiva x ação preventiva
✕ Correção
- – Resolve o caso específico agora
- – Ex.: refazer o laudo com o valor certo
- – Não impede que aconteça de novo
- – Sozinha, não fecha um RNC bem feito
✓ Ação corretiva + preventiva
- + Elimina a causa raiz identificada
- + Ex.: criar POP de atualização de parâmetro
- + Aplica o aprendizado a exames parecidos
- + É o que efetivamente fecha o ciclo do RNC
Em outras palavras: correção é o curativo (refazer o exame, reimprimir o laudo, pedir desculpa ao paciente). Ação corretiva ataca a causa raiz daquela NC específica para que ela não volte a acontecer. Ação preventiva vai além: usa o que foi aprendido para proteger processos semelhantes que ainda não falharam, mas correm o mesmo risco.
Se o seu RNC termina só com "problema corrigido", ele não terminou. Terminou quando você consegue explicar por que aquilo não vai se repetir.
Cuidado com o RNC que nunca fecha
Um RNC aberto há meses, sem ação corretiva definida ou sem verificação de eficácia, é pior do que não ter aberto: ele mostra ao auditor — e à sua própria gestão — que o processo de qualidade existe no papel, mas não funciona na prática.
Medindo o que importa: indicadores de não conformidade
Um programa de RNC saudável não é o que tem "zero não conformidade" — isso quase sempre significa que a equipe parou de registrar. É o que tem volume de registro consistente, causa raiz identificada na maioria dos casos e queda de recorrência ao longo do tempo. Os números abaixo são faixas de referência para calibrar o seu painel:
100%
RNC com causa raiz investigada
não só corrigidos
< 15 dias
prazo médio de fechamento
da abertura à verificação de eficácia
< 10%
taxa de reincidência
mesma causa raiz em 6 meses
3 fases
origem mapeada
pré, analítica, pós-analítica
Onde nascem as não conformidades registradas
Distribuição típica das NCs abertas por fase do processo. A fase pré-analítica costuma concentrar a maior parte, assim como os erros propriamente ditos.
- Pré-analítica58%58%
- Analítica20%20%
- Pós-analítica22%22%
Fonte: Faixas ilustrativas; cada laboratório calibra conforme seu histórico de registros.
Vale acompanhar também a evolução mês a mês do tempo médio de fechamento — um RNC que demora semanas para receber ação corretiva é sinal de que o processo de qualidade está subdimensionado ou sem prioridade da liderança.
Tempo médio de fechamento do RNC ao longo do ano
Evolução ilustrativa do prazo entre abertura do RNC e verificação de eficácia da ação corretiva, após reforço do processo de qualidade.
Fonte: Curva ilustrativa de melhoria contínua; resultados reais variam por maturidade do laboratório.
Por que planilha não sustenta um programa de RNC
É comum o laboratório começar o programa de qualidade com uma planilha de não conformidades — e funciona, por um tempo. O problema aparece na escala: sem prazo automático, sem notificação de responsável e sem ligação com o processo que gerou a falha, a planilha vira um cemitério de linhas que ninguém revisita. Isso é ainda mais grave na hora de uma auditoria PALC ou ISO 15189, quando o avaliador pede para ver a trilha completa — do registro à verificação de eficácia — de uma amostra de RNCs.
- Registro rápido no ponto de origem, direto da tela onde o erro foi percebido (recepção, bancada, liberação).
- Prazo e responsável automáticos, com alerta quando o RNC está prestes a vencer.
- Vínculo com o processo (amostra, equipamento, lote de reagente) que originou o desvio, sem precisar copiar dados à mão.
- Verificação de eficácia agendada — o sistema lembra de checar, semanas depois, se a NC realmente parou de se repetir.
- Indicadores gerados automaticamente por fase, categoria e recorrência, prontos para a reunião de análise crítica.
O ganho real não é o certificado
Um programa de RNC bem estruturado reduz retrabalho, protege o paciente e dá à liderança visibilidade real sobre onde o processo está frágil. A acreditação é a consequência de um sistema de qualidade que já funciona — não o motivo para criá-lo.
Perguntas frequentes sobre RNC
Qual a diferença entre não conformidade e evento adverso?+
Não conformidade é qualquer desvio de um requisito estabelecido (processo, especificação, prazo), com ou sem dano. Evento adverso é um dano real ao paciente decorrente do cuidado prestado. Todo evento adverso deveria gerar um RNC, mas nem todo RNC é um evento adverso — a maioria não chega a afetar o paciente.
Quem pode abrir um RNC no laboratório?+
Qualquer colaborador que identifique o desvio, independente do setor ou cargo. Restringir a abertura a supervisores ou ao setor de qualidade reduz drasticamente o volume de registros e esconde problemas reais.
Toda não conformidade precisa de ação corretiva?+
Toda NC precisa, no mínimo, de uma correção (resolver o caso) e de uma análise para decidir se cabe ação corretiva. NCs pontuais, sem causa sistêmica identificável, podem ser fechadas apenas com a correção — mas isso deve ser uma decisão registrada, não uma omissão.
Como a auditoria PALC ou ISO 15189 avalia o RNC?+
O auditor não olha só se existem registros — ele verifica se há causa raiz investigada, ação corretiva com prazo e responsável, e verificação de eficácia. RNCs abertos há meses sem fechamento ou sem análise de causa são um dos achados mais comuns em auditoria.
Nenhum laboratório vai zerar não conformidades — e não é essa a meta. A meta é ter um processo em que cada erro vira sinal, cada sinal vira investigação até a causa raiz, e cada causa raiz vira uma mudança que impede a repetição. É esse ciclo, rodando de forma consistente e registrada, que separa um laboratório que aprende com os próprios erros de um que os repete indefinidamente.
Fontes e referências
- 1.SBPC/ML — Programa de Acreditação de Laboratórios Clínicos (PALC). https://www.sbpc.org.br
- 2.ISO 15189:2022 — Medical laboratories: requirements for quality and competence. https://www.iso.org/standard/76677.html
- 3.ANVISA — Requisitos de boas práticas para laboratórios clínicos (RDC vigente). https://www.gov.br/anvisa
- 4.Plebani M. The detection and prevention of errors in laboratory medicine. Ann Clin Biochem. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/19952034/
- 5.Ministério da Saúde — Gestão da qualidade em serviços de saúde. https://www.gov.br/saude