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Carta de Levey-Jennings: lendo o CQ diário como um gráfico

Um número fora do intervalo não é o problema — o problema é não enxergar a tendência que vinha avisando três dias antes. Como montar, ler e agir sobre a carta que sustenta o controle de qualidade interno.

Equipe Lisya 12 de junho de 2026 8 min de leitura

Todo laboratório roda controle todo dia. Poucos realmente leem o resultado como gráfico. A carta de Levey-Jennings existe justamente para isso: transformar uma sequência de números soltos em uma linha visual, onde tendência e deslocamento saltam aos olhos antes de virarem um laudo errado liberado para o paciente. Dominar essa leitura é a diferença entre um CQ que só carimba "aprovado" e um CQ que efetivamente previne o erro.

O que é a carta de Levey-Jennings

A carta de Levey-Jennings é um gráfico de controle estatístico adaptado ao laboratório clínico nos anos 1950 por Stanley Levey e Elizabeth Jennings, a partir dos gráficos de controle industrial de Walter Shewhart. A lógica é simples: você roda um material de controle (com valor conhecido, mas não revelado ao analista) junto com as amostras de paciente, plota o resultado no eixo Y e o dia (ou a corrida) no eixo X.

No eixo Y não existe uma escala qualquer — existem limites estatísticos desenhados a partir da média e do desvio padrão (DP) daquele controle, naquele método, naquele analisador. É essa moldura estatística que transforma "o número está estranho" em "o número está a 2,3 desvios padrão da média, e isso tem uma probabilidade calculável de ser aleatório".

CQ interno não é o mesmo que ensaio de proficiência

A carta de Levey-Jennings é ferramenta de controle de qualidade interno (CQI) — rodada diariamente, dentro do laboratório. O ensaio de proficiência (CQ externo) é outra frente, comparando seu resultado com o de outros laboratórios via um provedor. As duas são exigidas pelo PALC e se complementam; uma não substitui a outra.

Montando a carta: média, desvio padrão e limites

A carta só é confiável se a base estatística for sólida. O caminho clássico:

  1. Rode o controle por 20 dias (ou 20 corridas). É o mínimo recomendado pela literatura para estimar média e DP com confiança razoável — menos que isso, os limites ficam instáveis.
  2. Calcule a média (x̄) dos 20 valores. Ela é o centro da carta, a linha em torno da qual tudo deveria oscilar.
  3. Calcule o desvio padrão (DP ou s), que mede a dispersão típica dos resultados em torno da média.
  4. Trace os limites em ±1, ±2 e ±3 DP. Por convenção, ±2DP marca a zona de atenção e ±3DP a zona de rejeição estatística — cerca de 95% dos resultados de um processo estável caem dentro de ±2DP, e praticamente todos dentro de ±3DP.
  5. Replote no dia a dia. A cada corrida, o novo ponto entra na carta e você compara a posição dele contra essa moldura fixa.

Um detalhe que muitos laboratórios erram: a média e o DP não são recalculados a cada nova corrida. Eles ficam fixos por um ciclo (tipicamente até a troca de lote do reagente/controle ou uma recalibração relevante), justamente para que a carta consiga detectar quando o processo se moveu em relação ao seu próprio histórico.

Carta de Levey-Jennings — 20 corridas de um controle de glicose

Média de 100 mg/dL e DP de 3 mg/dL. Repare como os últimos pontos sobem de forma consistente, mesmo sem nenhum valor ainda fora de ±3DP — é a tendência que precisa ser lida antes do erro se consumar.

0 mg/dL50 mg/dL100 mg/dL150 mg/dL200 mg/dLD1D2D3D4D5D6D7D8D9D10D11D12D13D14D15D16D17D18D19D20
Resultado do controle Média +2DP -2DP

Fonte: Série ilustrativa com fins didáticos; cada laboratório calcula sua própria média e DP a partir do histórico real do controle.

Lendo a carta: tendência x deslocamento

A carta detecta dois padrões de erro sistemático que são fisicamente diferentes — e exigem investigação diferente.

Tendência (trend)

É um deslizamento gradual, corrida após corrida, sempre na mesma direção — como no gráfico acima, subindo dia após dia. Costuma indicar degradação progressiva: reagente perdendo atividade, lâmpada do fotômetro envelhecendo, deterioração do controle no frasco aberto. A tendência é a mais fácil de prevenir e a mais fácil de ignorar, porque nenhum ponto isolado "estoura" o limite — o erro só fica óbvio quando já é tarde.

Deslocamento (shift)

É uma mudança abrupta e sustentada de patamar: a carta estava estável em torno da média e, de um dia para o outro, passa a oscilar em torno de um novo centro, geralmente para o mesmo lado. É a assinatura clássica de troca de lote de reagente ou de controle, recalibração mal feita, ou manutenção que alterou algo no equipamento sem que o laboratório recalculasse os limites.

O erro que mais engana

Um resultado dentro de ±2DP não é automaticamente "normal". Se os últimos 6 a 8 pontos vêm se movendo na mesma direção, ou se todos migraram para o mesmo lado da média depois de uma troca de lote, a carta já está sinalizando problema — mesmo sem nenhum ponto fora do limite.

A carta de Levey-Jennings não existe para dizer "aprovado" ou "reprovado". Existe para mostrar a forma da linha — e a forma avisa antes do número.

Aplicando as regras de Westgard

Ler "a olho" ajuda, mas depende da experiência de quem olha. Para tirar a subjetividade, James Westgard propôs um conjunto de regras estatísticas aplicadas sobre a própria carta — hoje o padrão de fato em controle de qualidade laboratorial. Cada regra tem um nome no formato N_L (número de controles _ limite em DP).

Regras de Westgard mais usadas no dia a dia

RegraGatilhoO que costuma indicarAção
1_2s1 controle além de ±2DPAlerta de triagem — nem sempre erro realAtenção; olhar as demais regras
1_3s1 controle além de ±3DPErro aleatório graveRejeitar a corrida
2_2s2 controles seguidos além de ±2DP no mesmo ladoErro sistemático (calibração, reagente)Rejeitar a corrida
R_4sDiferença entre dois controles > 4DPErro aleatórioRejeitar a corrida
4_1s4 controles seguidos além de ±1DP no mesmo ladoDeslocamento (shift) em formaçãoInvestigar antes de liberar
10x10 controles seguidos do mesmo lado da médiaDeslocamento consolidadoInvestigar e recalcular limites
Fonte: Conjunto de regras de Westgard consolidado na literatura de controle de qualidade laboratorial (Westgard QC).

Na prática, a maioria dos laboratórios não aplica as seis regras com o mesmo rigor em todo exame — isso geraria rejeições demais em analitos de baixa criticidade. O comum é combinar 1_3s e 2_2s como regras de rejeição obrigatória em todos os exames, e acrescentar R_4s, 4_1s e 10x nos analitos de maior risco clínico ou maior volume.

Como escalar a aplicação das regras

1_2s — triagem

Roda em todo exame; aciona olhar mais atento, não rejeita sozinha

1_3s e 2_2s — rejeição

Aplicadas em todos os exames; corrida rejeitada, causa investigada

R_4s, 4_1s, 10x — sensibilidade extra

Reservadas para analitos críticos ou de maior volume

20

corridas mínimas

para estimar média e DP

±2 DP

zona de atenção

gatilho de olhar com mais cuidado

±3 DP

zona de rejeição

regra 1_3s dispara sozinha

< 5%

meta de corridas rejeitadas

faixa de referência para processo maduro

A rotina diária: da bancada à decisão

Uma carta de Levey-Jennings só cumpre a função se estiver integrada à rotina de liberação, não guardada numa planilha que ninguém abre. O fluxo saudável é curto:

Do controle rodado à liberação do lote de pacientes

1

Rodar o controle

Junto com o lote de amostras, antes de liberar qualquer resultado

2

Plotar na carta

O ponto entra automaticamente contra a média e o DP vigentes

3

Aplicar as regras

Sistema avalia 1_3s, 2_2s e demais regras configuradas

4

Decidir

Dentro do controle: libera. Fora: investiga antes de liberar

5

Registrar a ação

Causa raiz e ação corretiva documentadas — vira evidência de auditoria

É aqui que a diferença entre planilha e sistema fica evidente. Numa planilha, alguém precisa lembrar de plotar, calcular o desvio manualmente e — na correria da bancada — a checagem vira formalidade preenchida depois. Num LIS que aplica as regras de Westgard automaticamente, o resultado do controle já chega classificado: dentro do esperado, em alerta ou fora de controle, com o lote de pacientes travado até a causa ser investigada.

CQ na planilha × CQ no LIS

Na planilha

  • Média e DP recalculados manualmente
  • Regras de Westgard aplicadas de memória
  • Tendência só aparece se alguém plotar o gráfico
  • Lote liberado antes da checagem terminar

No LIS

  • + Limites calculados e travados por ciclo de lote
  • + Regras aplicadas automaticamente a cada corrida
  • + Tendência e deslocamento sinalizados em tempo real
  • + Liberação bloqueada até o CQ ser resolvido

Trave a liberação, não só o alerta

O ganho real de automatizar a carta não é economizar tempo de cálculo — é impedir fisicamente que um lote de pacientes seja liberado enquanto o controle está fora, mesmo sob pressão de prazo.

Erros comuns na leitura da carta

  • Recalcular média e DP a cada corrida. Isso "persegue" o próprio processo e mascara justamente o desvio que a carta deveria capturar.
  • Ignorar tendência porque nenhum ponto passou de ±2DP. A regra 4_1s existe exatamente para pegar esse caso.
  • Trocar o lote do controle sem recalcular os limites. Cada lote novo de material de controle tem sua própria média — plotar o novo lote contra a média do lote antigo é comparar coisas diferentes.
  • Tratar 1_2s como rejeição automática. É regra de triagem, não de rejeição; usá-la como rejeição sozinha gera falso alarme em excesso e desgasta a equipe.
  • Guardar a carta só para a auditoria. Se ninguém olha no dia a dia, o valor preventivo desaparece — ela vira documento, não ferramenta.
Qual a diferença entre carta de Levey-Jennings e regras de Westgard?+

A carta de Levey-Jennings é a representação gráfica do controle ao longo do tempo, com limites em desvios padrão. As regras de Westgard são os critérios estatísticos aplicados sobre essa carta para decidir se uma corrida deve ser aceita ou rejeitada. Uma é o gráfico; a outra é o critério de decisão sobre o gráfico.

Quantos níveis de controle preciso rodar?+

O padrão mais usado é rodar pelo menos dois níveis (normal e patológico, por exemplo) a cada corrida ou turno. Alguns analitos críticos justificam três níveis. O número exato depende do risco clínico do exame e do que o método permite.

Um único ponto fora de ±2DP já significa que o resultado do paciente está errado?+

Não necessariamente. A regra 1_2s isolada é de alerta, não de rejeição — cerca de 1 em cada 20 corridas de um processo estável cai fora de ±2DP só por variação aleatória. O que importa é combinar essa observação com as demais regras e com o padrão dos pontos anteriores.

Com que frequência devo recalcular a média e o desvio padrão?+

Tipicamente a cada troca de lote do material de controle, após manutenção ou recalibração relevante do equipamento, ou em ciclos definidos no seu plano de qualidade (muitos laboratórios revisam a cada 3 a 6 meses). Fora desses gatilhos, os limites devem ficar fixos.

A carta de Levey-Jennings é uma das ferramentas mais antigas da medicina laboratorial e continua sendo uma das mais eficazes justamente porque ataca o problema certo: erro sistemático se anuncia antes de virar resultado errado, mas só para quem sabe olhar a forma da linha — não apenas o número do dia. Automatizar o cálculo e a aplicação das regras não substitui esse olhar; ele libera a equipe para usá-lo onde realmente importa, investigando a causa em vez de perseguir a planilha.

Fontes e referências

  1. 1.Westgard QC — Basic QC Practices e regras de Westgard. https://www.westgard.com
  2. 2.CLSI C24 — Statistical Quality Control for Quantitative Measurement Procedures. https://clsi.org
  3. 3.SBPC/ML — Programa de Acreditação de Laboratórios Clínicos (PALC) e controle de qualidade. https://www.sbpc.org.br
  4. 4.ANVISA — RDC 978/2025, requisitos de boas práticas para laboratórios clínicos. https://www.gov.br/anvisa
  5. 5.ISO 15189:2022 — Medical laboratories: requirements for quality and competence. https://www.iso.org/standard/76677.html
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